Ainda estou aqui
| Narrativa memorialística | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Romeu DonattiPublicado em 06 de Maio de 2026 ás 20h 33min
Respirava por todos os poros um desassossego desmedido. O sol penetrava timidamente pelas frestas da janela. Ainda entorpecido pelo despertar repentino, Eduardo, de pijama e descalço, caminhava pela casa com passos impacientes. Abriu a porta da frente, e os raios de sol cingiram seu rosto. Esfregou os olhos, foi recebido com euforia pelas suas adoráveis cadelinhas. Afagou-as, brincou com elas, coçou-lhes as barrigas, alimentou-as com petiscos apetitosos que elas devoraram com alegria.
Dirigiu-se até a cozinha. O silêncio era absoluto. Vez ou outra, o sossego matinal era quebrado pelo canto dos passarinhos ou pelas travessuras caninas. Algo pairava no ar, uma inquietação silenciosa. Eduardo andava de lá para cá, sem saber ao certo o que lhe afligia. Pensou em fazer café, mas adiou a ideia.
Entrou no seu escritório. Avistou a caixa de fotografias que deixara sobre a escrivaninha na noite anterior. Abriu-a, sentou-se e acomodou-a cuidadosamente diante de si. Foi retirando, com um gesto quase automático, álbuns e fotografias soltas. Ele procurava por algo sem saber o quê. Como quando se busca com urgência, no entanto se esquece do que se queria.
Saudade, melancolia e nostalgia pulsavam freneticamente dentro daquela caixa. Revirou-a com sofreguidão. De repente, seus olhos se fixaram numa fotografia. Agarrou-a com uma intensidade quase dolorosa. A imagem, amarelada pelo tempo, trouxe-lhe um largo sorriso e encheu seus olhos de lágrimas.
Ficou alguns momentos, imóvel, admirando a foto, desvendando cada detalhe. Reconheceu os rostos familiares, lembrou-se do dia, do local. Virou a fotografia. No verso, estava escrito: "12 de dezembro de 1975 – Copacabana – Férias (Comemoração do Aniversário da Laura)".
Algo estremeceu dentro dele. O sorriso desapareceu, e a imagem se desfez em um novo sentimento. Largou a foto sobre a caixa, como se quisesse se livrar dela. De repente, ele se debruçou sobre o computador portátil e se entregou a um choro profundo e desolador. O peso daquela lembrança se fez presente como nunca antes.
Alguns minutos depois, recompôs-se. Com o rosto ainda molhado, Eduardo recomeçou a revisitar a foto. As imagens do passado voltaram com nitidez, saltando ligeiras de seu baú de recordações. Lembrou-se da areia quente, fofa, úmida ao toque dos pés. Era o seu primeiro contato com o mar, e sentia-se deslumbrado. Olhava para o horizonte, onde o azul do mar se confundia com o azul do céu, criando uma linha tênue entre o céu e a água. Ele também se sentia azul, por dentro e por fora, de contentamento e realização. As ondas vinham mansamente até seus pés, fazendo cócegas. Tentava pegar a espuma das ondas com suas mãos pequeninas, enquanto corria à beira-mar com os irmãos, sob o olhar atento dos pais e tios. Estavam todos ali, imersos na alegria daquela manhã ensolarada.
Todavia, conforme as memórias se sucediam, o semblante de Eduardo se transformava. O azul da recordação se desvanecia e dava lugar ao cinza. O sol daquele dia se apagava em sua mente, e as ondas, que antes eram suaves, tornavam-se impetuosas, atingindo seu corpo franzino com uma fúria inesperada. O céu que antes era limpo e claro, agora estava encoberto por nuvens densas de angústia e terror.
Eduardo, com um movimento brusco, devolveu a fotografia à caixa, como se tentasse se livrar de um fardo insuportável. Entretanto, o alívio não veio. As cicatrizes daquela memória estavam profundamente cravadas em sua alma, e o que ele desejava, desesperadamente, não podia ser apagado. Seu pai, um ex-deputado federal, fora conduzido para dar um depoimento no quartel da polícia militar e posteriormente nunca mais visto. Aquela fotografia havia sido o último registro feito com a presença do pai. A história de sua família fora interrompida, dilacerada e assinalada para sempre por aquele inesperado e brutal desaparecimento.
Ele fechou a caixa com uma lentidão que parecia refletir o peso do que sentia. Olhou para o vazio, como se procurasse respostas que não viriam. O som das cadelinhas brincando lá fora foi a única coisa que lhe trouxe um leve conforto, porém mesmo elas pareciam distantes agora. Algo dentro de Eduardo ainda se movia, estava insatisfeito, incompleto, inquieto. E, sem saber o que mais fazer, deixou-se cair novamente sobre a escrivaninha, com a mente repleta de perguntas não respondidas.
Recordou-se da névoa sombria que pairou sobre o país durante os "anos de chumbo", quando opositores do regime militar foram duramente perseguidos. A dor vivida por sua família e por tantas outras, ainda ecoava nas lembranças. As práticas cruéis das forças militares – que incluíam prisões arbitrárias, torturas físicas e psicológicas, abusos sexuais e outras barbáries – sufocaram a população inteira, que se viu imersa em um clima constante de medo, censura e repressão.
Naquela época, sua mãe, já com mais de 40 anos, precisou retomar os estudos universitários e se desfazer de alguns poucos bens para garantir o sustento da família. Assim, foi construída uma história marcada por muitas privações e dificuldades, mas também por uma imensa luta, força, apoio, amor e carinho. Eduardo e seus quatro irmãos cresceram aprendendo a valorizar a importância da família e da educação.
Envolvido por um turbilhão de emoções que tocava profundamente sua memória e seu coração, Eduardo revirou desesperadamente a caixa de fotografias. As reminiscências, entrelaçadas com dor, revolta e saudade, lhe embrulharam o estômago. A aflição lhe invadiu e turvou com fúria seus pensamentos, tornando-os ainda mais confusos e agitados.
Sem hesitar, afastou a caixa e, rapidamente, abriu o computador. Com uma intensidade quase frenética, começou a digitar, suas palavras saíam com uma urgência visceral.
“Dias como os que vivi, espero que no Brasil, NUNCA MAIS! Ainda estou aqui, atônito, perplexo e marcado pelas recordações que me assombraram e continuam a assombrar, tantos anos depois. Torço para que minha história sobreviva, para que ela resista e mostre que o horror e a barbárie não têm mais espaço em nossa trajetória.”
Ao escrever, ainda perdido em suas lembranças, sentiu-se aliviado e em paz.
Comentários
Esta brilhante obra de Romeu Donatti expõe as chagas, as feridas de um tempo onde a mordaça era o trivial, tempo onde sombras negras pairavam sobre o nosso chão. Donatti explora o peso de um triste e amargo passado e a necessidade visceral de que seja registrado na história e lembrada nas gerações atuais e vindouras com o intuito de que aqueles dias de ignorância, revoltante e inominável horror não se repita nunca mais! Devo dizer, ainda que nosso querido escritor Romeu Donatti está de Parabéns pela coragem de expor esata ferida, cuja cicatriz ainda sangra!
Enoque, muito obrigado por sua apreciação. Sua leitura detalhada e seu comentário profundo retratam com fidedignidade o que escrevi e o que este período obscuro representou/representa para nossa história. Abraço.