Ainda consigo me lembrar daquele mundo, embora nunca tenha existido.
| | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Alexandre BarbosaPublicado em 13 de Agosto de 2026 ás 22h 37min
Havia algo de familiar em suas paisagens, como se eu já tivesse caminhado por aquelas terras antes mesmo de conhecê-las. Montanhas se escondiam atrás das nuvens, mares refletiam uma luz que não vinha do céu e, entre caminhos que pareciam não levar a lugar algum, pessoas seguiam suas vidas como se sempre tivessem pertencido àquele lugar.
Reis erguiam taças enquanto vozes se perdiam dentro de grandes salões; longe dali, mãos calejadas encontravam no pouco que possuíam motivos para continuar. Crianças recebiam a chuva de braços abertos, como se o céu lhes tivesse oferecido uma brincadeira. Em algum lugar, alguém esperava. Em outro, alguém partia.
Talvez fosse estranho chamar aquilo de lembrança. Eu não conhecia aquelas pessoas, nunca havia tocado aquelas águas, nunca havia caminhado por aquelas estradas. Ainda assim, tudo parecia possuir o peso de algo que eu havia perdido.
E quanto mais aquela paisagem se afastava, mais difícil ficava distinguir o que havia sido imaginado daquilo que realmente existia. As montanhas desapareciam lentamente, o mar perdia seu brilho e a chuva deixava de cair.
Quando tentei guardar aquela última imagem, ela já não estava mais ali.
Restou apenas a sensação de ter vivido em algum lugar que jamais existiu.