Ai se os versos perguntassem
| Poesia Lírica | 2026/07 Antologia Quando o verso pergunta | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 06 de Julho de 2026 ás 22h 49min
Antes que o minarete silencie,
deixo que os versos façam as perguntas.
Aí se perguntassem
por que meus olhos falam a língua
das correntes antigas,
eu diria:
o Bósforo me ensinou
a amar o que separa e une,
a ouvir o que não tem voz.
Aí se perguntassem
quem mantém acesa a lamparina
quando a névoa cobre o estreito,
eu diria:
é o Sultão do Silêncio,
que não reina com espadas,
mas com um olhar
que atravessa séculos e mares.
Aí se perguntassem
para onde levam minhas lágrimas,
eu mostraria o firmamento:
cada gota que o coração derrama
é uma estrela nova
que nasce sobre Istambul.
Aí se perguntassem
por que navego sem ver a margem,
eu responderia:
porque o amor é a minha quilha,
e a fé, o meu timão —
há rotas que só existem
para quem ousa atravessar o invisível.
E se os versos me perguntassem
quem sou eu,
eu sorriria como o vento
que passa pelas cúpulas:
sou um verso que o Eterno escreveu
sobre a água,
uma prece que ainda aprende
a cantar em uníssono com o universo.
Enquanto houver um estreito
entre o que sei e o que sinto,
haverá poesia.
Pois as maiores respostas
não são ditas —
são vividas,
na travessia.