A volta de Miguel São arcanjo
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 24 de Março de 2026 ás 19h 05min
Miguel Arcanjo — um sussurro na escuridão.
Teu retorno não chega: ele desperta,
como um tremor secreto sob a terra em repouso.
E eu permaneço na soleira da meia-noite,
onde o mundo exala seu último suspiro cansado —
e escuto.
A noite respira fundo,
desdobra seu manto de veludo
sobre os campos adormecidos.
Nenhum grilo ousa tecer seu ritmo,
nenhuma voz interrompe o instante:
há apenas o silêncio, vasto e puro,
como uma tela à espera da mão divina.
Estendo meus ouvidos além do visível,
além do roçar das folhas ocultas,
além do suspiro distante das luzes humanas.
Procuro não um som,
mas um pressentimento.
Não é trovão,
nem o passo pesado dos mortais.
É o abrir de uma asa invisível,
o deslocar de um ar que desconhece o peso,
um som que não se ouve — se reconhece.
Eu ouço teus passos, Miguel,
não sobre a terra,
mas sobre o próprio tecido do silêncio.
Cada passo — uma ressonância,
um diapasão tocado no infinito.
Caem suaves como orvalho
sobre pétalas esquecidas,
e ainda assim carregam
o peso de guerras antigas,
de luzes que lutaram contra a noite.
O silêncio se transforma.
Já não é vazio —
é ventre.
Está pleno, grávido de presença.
O que antes era ausência
agora se torna coro:
um sussurro de harpas de cristal
vibrando no invisível.
E quando a quietude se aprofunda,
quando o mundo enfim se rende ao nada,
então nasce a música.
O silêncio canta.
E sua melodia
não atravessa os ouvidos —
atravessa a alma.
É um canto de retorno,
um eco de origem,
talvez o anúncio de um juízo necessário —
límpido como o gelo da aurora.
Sinto essa vibração
subir pelas solas dos meus pés descalços,
um pulso firme, eterno,
cada vez mais próximo.
O ar se curva,
não pelo frio,
mas pela santidade que o visita.
Ouço o leve ranger da armadura celeste,
o ajuste quase imperceptível
de um ombro infinito.
Miguel Arcanjo,
Comandante da Vigília,
tu atravessas o limiar
que apenas a noite profunda revela.
E nesse vazio sagrado — que não é vazio —
onde som e silêncio se tornam um só,
eu escuto.
Inegavelmente.
Um som mais antigo que a memória,
mais novo que o amanhã.
Eu escuto.
Eu escuto a certeza da tua chegada.
E a noite —
humilde —
curva a cabeça diante de ti.
Comentários
Viva a Miguel Arcanjo! Quase uma ladainha.... Parabéns
ADAILTON LIMA | 25/03/2026 ás 09:43