A Vila onde cresci

 

Todos os dias ao alvorecer, o canto forte dos pássaros do Sr. Bebel, nos despertava na pequena Vila Getúlio Vargas, conjunto de três ruas que se fundiam a uma só, dando a impressão de um pequeno labirinto. A rua da frente era calçada com pedras lisas, suas casas eram bem acabadas e os moradores em sua maioria possuíam veículos. A rua de trás era talvez onde moravam as pessoas mais humildes, tinha ligações para a parte baixa da vila, e com outras localidades, o chão de barro batido era ótimo para o jogo de gude, fura pé e garrafão. A rua do meio era a que menos chamava a atenção, parte calçada, parte de terra, ali ficava o único telefone público da Vila, foi inaugurado com pompa e circunstância e era anexo a quitanda de Sr. Florisvaldo, conhecido como Caixeiro. 

 

Todas as ruas tinham suas curiosidades e atrativos, as crianças se divirtam livremente por entre elas, o terreno baldio, era o nosso paraíso, ninguém sabia a quem pertencia, acho que todos eram donos. Seu Maninho, um índio velho, com um charuto eterno na boca, era dono de uma biboca, onde se vendia tudo, era um cômodo minúsculo de uma porta estreita, uma janela e um pequeno balcão. Os meninos comumente vendiam cobre e alumínio para Sr. Maninho, que nunca oferecia o valor imaginado, e ficávamos na bronca. A vendinha de Sr. Maninho fazia a tríplice aliança, ligava as três ruas que se encontravam na porta do velho índio. 

 

Pessoas pitorescas como João Barbudo, que no nosso imaginário se transformava em lobisomem, dona Ana, era "nossa" bruxa, Dário que só ficava bêbado, comia vidro (ficava imaginando na hora da saída), e cantava canções de Nelson Gonçalves. As aventuras daquela época, se resumiam em "pegar emprestado" frutas na roça do Português, em pongar nos coletivos na ladeira e passar trote no orelhão. 

 

Era um cotidiano salutar, hábitos e costumes, que nos anos setenta e oitenta, nos abastecia de emoções e entretenimento, a vida passava suave e sem sustos, mas quando faltava algo nas nossas casas, certamente encontrávamos na quitanda de caixeiro e se o remédio da farmácia não fizesse efeito, seu maninho tinha alguma erva milagrosa, a diversão estava garantida com as histórias de João Barbudo e o silêncio era quebrado com a "ébria" cantoria de Dario Dias Pulgas: "Cabocla seu olhar tá me dizendo que você tá me querendo...".

 

ADAILTON LIMA

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