A última floração
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 20 de Agosto de 2026 ás 10h 25min
A Última Floração
Rosy Neves
Eu sou uma árvore antiga, milenar,
carrego nos galhos o peso dos séculos,
e por mim já passaram tantos outonos,
tantas luas, tantas chuvas,
tantos restos cansados de eternidades.
Minhas raízes conhecem
os segredos enterrados da terra,
e minhas folhas guardam
nomes que o vento já esqueceu.
Vi pássaros nascerem,
vi ninhos partirem,
vi o tempo passar descalço
sobre minhas sombras.
Agora, porém,
há uma primavera escondida em mim.
Uma última seiva sobe lentamente,
como uma oração antiga,
e pequenas flores despertam
onde ninguém mais esperava.
Estou florescendo pela última vez.
E não tenho medo.
Talvez morrer seja apenas
devolver à terra
tudo aquilo que um dia ela nos emprestou:
o perfume, a sombra,
a madeira, o silêncio,
a beleza breve de estar vivo.
Quando minhas últimas pétalas caírem,
não digam que a árvore morreu.
Digam que ela voltou para a terra
para dormir entre as raízes
e sonhar com outra primavera.
Porque a morte não é um castigo —
é apenas o último outono
antes de alguma eternidade desconhecida.
E enquanto houver uma flor
nascendo no meu galho cansado,
eu ainda serei árvore,
ainda serei memória,
ainda serei poesia.
E talvez,
quando eu já não estiver aqui,
alguém encontre uma flor minha
no chão...
e compreenda
que até o fim
eu escolhi florescer.