A travessia que me escreve

Poemas | | Jô Rodrigues
Publicado em 18 de Julho de 2026 ás 12h 39min

Não fui eu quem encontrou as palavras.

 

Foram elas que, um dia, bateram à porta da minha alma enquanto o mundo fazia silêncio. Vieram sem mapas, sem promessas e sem certezas. Trouxeram apenas a delicadeza de quem conhece os caminhos que os olhos não alcançam.

 

Desde então, cada

palavra tornou-se uma travessia.

 

Atravessei infâncias que ainda respiram dentro de mim, recolhi pedaços de sonhos esquecidos entre as páginas do tempo, abracei perdas que nunca aprenderam a dizer adeus e descobri que a saudade também escreve quando o coração não encontra outra linguagem.

 

Há memórias que envelhecem.

Outras florescem.

As que florescem transformam-se em versos.

 

Escrever é atravessar rios invisíveis sem saber a margem que nos espera. É permitir que as cicatrizes deixem de ser apenas marcas e se convertam em paisagens. É compreender que nenhuma dor permanece intacta quando encontra abrigo na poesia.

 

Cada texto que nasce leva consigo um pouco de quem fui e um fragmento de quem ainda estou aprendendo a ser.

A escrita não me devolve o passado.

Ela lhe oferece um novo sentido.

 

Talvez seja esse o destino das palavras: não apagar ausências, mas iluminá-las; não impedir o tempo, mas ensinar a caminhar ao lado dele.

 

No fim da travessia descubro que não escrevo para escapar da vida.

Escrevo para habitá-la com mais verdade.

E, enquanto existir uma palavra capaz de tocar outra alma, nenhuma travessia será em vão.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.