Não fui eu quem encontrou as palavras.
Foram elas que, um dia, bateram à porta da minha alma enquanto o mundo fazia silêncio. Vieram sem mapas, sem promessas e sem certezas. Trouxeram apenas a delicadeza de quem conhece os caminhos que os olhos não alcançam.
Desde então, cada
palavra tornou-se uma travessia.
Atravessei infâncias que ainda respiram dentro de mim, recolhi pedaços de sonhos esquecidos entre as páginas do tempo, abracei perdas que nunca aprenderam a dizer adeus e descobri que a saudade também escreve quando o coração não encontra outra linguagem.
Há memórias que envelhecem.
Outras florescem.
As que florescem transformam-se em versos.
Escrever é atravessar rios invisíveis sem saber a margem que nos espera. É permitir que as cicatrizes deixem de ser apenas marcas e se convertam em paisagens. É compreender que nenhuma dor permanece intacta quando encontra abrigo na poesia.
Cada texto que nasce leva consigo um pouco de quem fui e um fragmento de quem ainda estou aprendendo a ser.
A escrita não me devolve o passado.
Ela lhe oferece um novo sentido.
Talvez seja esse o destino das palavras: não apagar ausências, mas iluminá-las; não impedir o tempo, mas ensinar a caminhar ao lado dele.
No fim da travessia descubro que não escrevo para escapar da vida.
Escrevo para habitá-la com mais verdade.
E, enquanto existir uma palavra capaz de tocar outra alma, nenhuma travessia será em vão.