A travessia das palavras
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 10 de Maio de 2026 ás 14h 38min
A Travessia das Palavras
As palavras nascem como barcos
no silêncio profundo da alma.
Pequenas embarcações de vento,
feitas de memória,
sal,
e eternidade.
Algumas chegam leves,
como gaivotas pousando
sobre a tarde dourada.
Outras atravessam tempestades,
rasgando mares escuros
dentro do peito.
Há palavras que sangram.
Há palavras que curam.
E há aquelas
que ninguém consegue dizer,
porque moram no fundo do abismo
onde Deus escondeu os segredos.
Eu caminho entre sílabas
como quem atravessa um oceano antigo.
Cada verso é uma onda.
Cada poema,
um farol aceso
na neblina da existência.
À noite,
ouço constelações inteiras
sussurrando metáforas
sobre os telhados do mundo.
As estrelas conhecem
o idioma das almas partidas.
E eu escrevo.
Escrevo como quem recolhe conchas
na beira infinita do tempo.
Como quem procura
o nome perdido do amor
entre ruínas de outono
e jardins abandonados pelo vento.
Ah, a travessia das palavras...
Esse rio invisível
onde os poetas naufragam
para renascer em luz.
Porque escrever
é atravessar a própria noite
carregando uma pequena chama
acesa nas mãos.
E mesmo quando tudo silencia,
as palavras continuam navegando —
feito barcos eternos
sobre o mar insondável
do coração humano.