A travessia das palavras
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 24 de Março de 2026 ás 10h 16min
A travessia das palavras,
uma jornada iniciada não na costa familiar,
mas onde o mapa se dissolve em silêncio índigo.
Eles deixaram o porto da língua conhecida,
aqueles pequenos navios de significado,
impulsionados por um suspiro que não conseguíamos nomear.
O rio, ah, o rio,
não era água que fluía,
mas luar solidificada,
uma corrente de puro potencial,
fluindo contra a gravidade,
além do céu visível.
Nós os vimos navegar,
estas preciosas sílabas,
cada uma uma lanterna tremeluzente,
navegando na superfície escura e lisa.
As estrelas não estavam acima,
mas abaixo da linha d'água,
uma galáxia submersa espelhando o vazio de cima.
As palavras navegavam por esta luz secreta,
o brilho profundo das coisas não ditas,
os ecos dos começos.
Elas carregavam fardos,
o peso dos desejos,
o brilho prateado de um sonho esquecido.
Algumas palavras eram pedras pesadas,
polidas pelo fluxo incessante,
outras, frágeis asas de libélula,
quase perdidas na névoa.
A viagem foi longa,
medida não em horas,
mas na lenta rotação de bússolas internas.
Elas falavam com as constelações que sussurram segredos à poeira entre mundos.
Cruzar esse rio,
é esquecer o som da costa,
confiar na atração da melodia não ouvida.
O destino não era um lugar,
mas uma ressonância,
um alinhamento perfeito entre silêncio e som.
E quando a última palavra finalmente aportou,
não foi em terra, mas na vasta e aberta compreensão,
onde a linguagem finalmente descansa,
desfardada,
tendo tocado a beira do para sempre,
além da última estrela azul.
A travessia concluída,
o rio permanece, esperando pela próxima frota silenciosa.
Comentários
Totalmente dentro da proposta, parabéns
ADAILTON LIMA | 24/03/2026 ás 12:10