A Travessia das Palavras: entre o Tacho e a Bica
| Poesia Lírica | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Liliane Inácia da SilvaPublicado em 29 de Julho de 2026 ás 17h 16min
É no fogão a lenha que aprendo o mistério das palavras.
Como o doce apressado que açucara,
a palavra sem o tempo não ganha brilho,
não alcança o ponto.
Para dar ponto ao doce, é preciso abaixar o fogo,
uma colher de pau, a paciência das horas
e um coração aberto, capaz de acolher e oferecer abrigo.
As palavras também são assim. Não nascem prontas.
Algumas são nos dadas, outras se transformam,
como o leite no tacho, recebendo o calor do tempo,
até esquecerem o leite que eram e se tornarem doçura.
Depois elas ganham o mundo. Umas vão pela estrada de terra,
levantando a poeira vermelha!
Outras acompanham o curso da água da bica
e seguem seu destino, sem medo das pedras do caminho.
A bica me ensinou que insistir é uma forma serena de caminhar.
Nunca vi a água discutir com os obstáculos do caminho.
Ela apenas passa, de mansinho, e cada pedra,
por mais dura que seja, acaba polida pelo carinho
de tantos reencontros.
E o silêncio... Ah, o silêncio nunca está vazio.
Está cheio de palavras não ditas,
guardadas no banco da varanda, no gesto da mão calejada
repartindo o café e o pão.
Se eu pudesse escolher o destino dos meus versos,
queria que fossem como a água da bica, que sacia alguém;
como o café quente, compartilhado com um amigo;
como o doce tirado do tacho no ponto e servido,
porque as coisas mais doces da vida não precisam de excesso.