A travessia celeste

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 27 de Maio de 2026 ás 10h 24min

A Travessia Celeste

 

Ela navega suavemente por um rio de estrelas,

mas esse rio não corre nas terras deste mundo.

Ele flui em absoluto silêncio,

deslizando entre jardins que os olhos não podem ver,

e sob luas que repousam adormecidas,

guardadas para sempre na memória de Deus.

 

Ali, as águas não são feitas de água comum —

são tecidos e véus de uma luz muito antiga,

suspiros derramados de constelações que já se apagaram,

e pérolas raras que caíram, uma a uma,

dos olhos imensos e profundos do infinito.

 

Ela segue a sua viagem, inteiramente só,

dentro da sua pequena barca feita de névoa e silêncio,

com os cabelos levados pelo vento cósmico e eterno,

e os olhos, profundos e calmos,

carregados de séculos e eternidades sem fim.

 

Às vezes,

borboletas de asas translúcidas e luminosas

descem e pousam suavemente sobre os seus ombros,

tão leves e raras

quanto pequenos milagres que se haviam perdido no espaço.

 

E ela chora.

Mas não de tristeza ou de dor…

Ela chora porque ouviu, vindo de muito longe,

o eco suave da canção esquecida,

cantada pelas estrelas que, um dia,

morreram de tão grande amor.

 

Silêncio… silêncio…

Que o universo inteiro parece parar para escutar,

atento e respeitoso,

o leve rumor da sua doce travessia.

Há planetas que se inclinam, mudos,

baixando a sua luz para contemplar a sua passagem.

Há anjos que se escondem nas nebulosas,

acendendo lamparinas de fogo azul

em sua homenagem e honra.

 

Ela navega devagar, muito devagar,

como quem procura, com paciência,

um jardim raro e sagrado

que existiu antes mesmo do início do tempo.

E enquanto o rio celeste continua a cortar

e a rasgar os imensos abismos do infinito,

o seu coração, calmo e firme,

acende, um a um, raios de luz,

pequenas e suaves auroras

na imensa e fria solidão do cosmos.

 

Porque ela pertence, inteira e definitivamente,

ao reino das coisas que não podem permanecer na Terra:

os sonhos impossíveis e inatingíveis,

as flores que só nascem e abrem na chuva,

e as estrelas raras

que, tal como ela,

aprenderam a sentir, a amar e a sofrer.

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