A TERRA TAMBÉM SE LEMBRA
| Crônica | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Jonathan Francieverton da SilvaPublicado em 12 de Junho de 2026 ás 16h 37min
Há lembranças que não moram na cabeça. Moram no chão. Descobri isso muitos anos depois de deixar o lugar onde cresci. Na cidade, cercado pelo movimento apressado das ruas, eu acreditava que a memória estivesse guardada apenas nas fotografias amareladas ou nas histórias que repetimos para não esquecer. Mas bastou voltar ao interior, numa tarde qualquer, para perceber que algumas recordações permanecem vivas na própria terra.
A estrada era a mesma, embora parecesse menor. As árvores continuavam de pé, como velhas guardiãs do tempo. O vento atravessava os galhos com o mesmo som que eu ouvia quando criança. E, por um instante, senti que os anos haviam desaparecido.
Lembrei-me das manhãs que começavam antes do sol nascer por completo. O canto do galo servia de relógio, e o cheiro do café coado anunciava que o dia já estava de pé. A casa despertava devagar, sem a correria que hoje parece governar o mundo. Havia tempo para conversar, para observar o céu, para sentar na calçada sem nenhum compromisso além de ver a tarde passar. Os mais velhos sabiam viver esse tempo.
Meu avô costumava dizer que a terra ensinava mais do que muitos livros. Na época, eu não entendia. Achava que era apenas uma frase bonita de quem passou a vida trabalhando na roça. Hoje percebo que ele falava de algo maior. A terra ensinava paciência. Ninguém apressa uma semente. Ninguém ordena que a chuva chegue mais cedo. Tudo tem seu momento. Tudo exige espera. Talvez por isso as pessoas do interior aprendam desde cedo a respeitar o tempo das coisas.
As histórias também cresciam assim. Nasciam nas conversas ao redor da mesa, durante as noites iluminadas por poucas lâmpadas e muitas estrelas. Cada pessoa carregava um causo, uma lembrança ou uma sabedoria simples que parecia atravessar gerações. Não era preciso escrever nada. As palavras encontravam abrigo na memória de quem escutava. Hoje percebo que aquelas histórias eram uma forma de herança.
Não uma herança guardada em cofres ou registrada em papéis, mas uma riqueza que passava de boca em boca. Era a lembrança do vizinho que ajudava na colheita, da festa na pequena praça, das crianças correndo pelos caminhos de barro, dos encontros que transformavam qualquer tarde comum em motivo de alegria.
Quando voltei ao lugar onde cresci, encontrei algumas mudanças. Certas casas estavam fechadas. Alguns rostos já não apareciam nas portas ao entardecer. O silêncio ocupava espaços antes preenchidos por vozes conhecidas. Mesmo assim, algo permanecia intacto.
A terra continuava guardando os passos de quem passou por ali. O velho pé de árvore seguia oferecendo sombra. O cheiro da chuva sobre o chão seco continuava despertando memórias que eu imaginava esquecidas. Era como se o lugar se recusasse a deixar partir completamente aqueles que fizeram parte de sua história.
Foi então que compreendi uma coisa simples: o interior não é apenas um espaço no mapa. É uma forma de existir. É um jeito de olhar para a vida com menos pressa e mais presença. É aprender que as raízes importam, não porque nos prendem ao passado, mas porque nos lembram de quem somos.
Os versos que nascem da raiz e do chão carregam exatamente essa força. Eles falam da terra, mas também falam das pessoas. Falam de mãos calejadas, de afetos silenciosos, de esperanças cultivadas dia após dia. Falam daquilo que resiste ao tempo. E talvez seja por isso que certas lembranças nunca desapareçam.
Porque algumas memórias criam raízes tão profundas que nem a distância consegue arrancá-las. Elas permanecem vivas no cheiro da terra molhada, no som do vento atravessando a paisagem e na saudade serena que nos visita quando recordamos de onde viemos. Afinal, assim como as pessoas, a terra também se lembra.