A RODA DOS PRIMOS
| | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Eidi MartinsPublicado em 30 de Setembro de 2026 ás 20h 25min
A memória é uma coisa engraçada. Mora em uma caixinha que a gente não sabe exatamente onde guardou, mas que, de repente, se abre de supetão. E quando a tampa se levanta, vêm junto os cheiros, os sons, as vozes e aquele sorriso gostoso que vem antes mesmo de a lembrança terminar de chegar.
Éramos crianças, livres e cheias de sonhos. A vida simples, com certeza, cabia inteira nas pequenas coisas: nas festas de família, no chão coberto de grama verde e em uma roda de primos que não precisava de muito para ser feliz.
Nas nossas conversas, as histórias antigas ganhavam novas versões. Uma lembrança engraçada passava de boca em boca e sempre voltava mais divertida do que antes. Ríamos até a barriga doer, até os olhos se encherem de lágrimas, mas eram daquelas lágrimas que nascem da alegria.
Um primo pegava o violão e puxava uma moda antiga. As vozes se misturavam: algumas afinadas, outras apenas cheias de vontade. Tinha os que sabiam a letra inteira e tinha os que cantavam sem saber o ritmo, mas ninguém se importava. A música não estava na perfeição dos sons; estava na presença de cada um ali, naquela roda de primos.
Sentados no chão, naquela graminha verde, debaixo do céu aberto, nos tornávamos donos de um tempo que a gente mesmo fazia e, sem perceber, construíamos aquilo que o passar dos anos jamais conseguiu apagar.
Hoje entendo que aquelas rodas de primos eram mais do que encontros. Eram pequenos pedaços de eternidade escondidos em uma festa de família. Eram abraços sem braços, músicas sem partituras e memórias que guardamos para a vida, pois sempre, no momento certo, elas voltam.
As boas lembranças não desaparecem quando o tempo passa. Elas apenas ficam guardadas nas nossas caixinhas de memórias, esperando uma palavra, um cheiro ou uma saudade para abrir novamente a tampa e nos fazer lembrar que, na nossa infância, fomos muito felizes.