O papel em branco é um mar sem margens,

um silêncio que espera pelo passo.

Escrever é juntar velhas imagens

e costurar a vida no espaço.

Vem a memória, feito brisa mansa,

trazer o cheiro da chuva no portão,

o riso antigo de quem foi criança,

a saudade que aperta o coração.

Cada letra é uma pedra assentada,

cada verso é um vão que se desfaz.

A escrita é ponte bem traçada

entre o que fomos e o que se faz.

Atravessei oceanos de silêncio,

deixei no traço o afeto e a ferida,

pois sei que a dor e o sonho que vivencio

são os mesmos que tecem a tua vida.

Leitor, que colhes o que foi plantado,

minha história agora é o teu porto.

O que em mim era ontem e passado,

no teu peito encontra abrigo e conforto.

A travessia enfim está cumprida:

a palavra voou, venceu a distância.

E o que era apenas a minha vida,

em tua alma, ganhou eterna infância.

Silvia Santos

 

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