A poesia é um barco
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 02 de Março de 2026 ás 08h 29min
A poesia é um barco
A poesia dentro da minha alma
é um barco à deriva
sem remos, solto no azul vasto.
Um casco de madeira antiga,
talvez um pouco rachado,
mas ainda flutuando, teimoso,
no oceano do ser.
As velas, feitas de sonhos desfiados,
apenas tremulam
sob ventos que não escolho.
Navego contra a maré,
essa força implacável
que insiste em me puxar de volta
para a costa conhecida,
o porto seguro da inércia.
Mas a alma poeta não se contenta
com águas paradas.
Busca a crista da onda contrária,
o desafio molhado,
o sal que arde um pouco
mas limpa a vista.
Cada palavra não dita,
cada verso contido,
é um peso morto que me afunda um pouco,
mas a teimosia da criação
é a corrente que me move.
O leme quebrou há muito tempo,
ou talvez nunca existiu.
Sou guiado por instintos profundos,
pela luz das estrelas que só a noite revela,
pelo chamado da ilha que ainda não avistei.
A maré empurra, tenta me virar,
mostra a força bruta do esquecimento,
a facilidade de apenas ceder.
Mas o barco da poesia
é movido pela necessidade de contar,
de transformar a espuma salgada
em versos que brilham,
mesmo sob o céu mais cinzento.
Estar à deriva é estar livre,
mesmo que o destino seja incerto.
É confiar que a corrente interna,
essa música silenciosa,
me levará para onde a rima espera,
onde a estrofe se completa.
É remar com o olhar,
é navegar com o desejo ardente.
Contra a maré, sim,
mas com a beleza indomável
de quem se recusa a ancorar
enquanto houver uma gota de tinta no mar.
Um barco lento, cansado talvez,
mas sempre em movimento,
abrindo caminhos na água espessa.
A poesia é essa viagem impossível,
essa teimosia lírica,
contra tudo o que quer me parar.