Tem uma nota naquela guitarra que me corta. Desde os meus 4 anos, essa música não entra pelo meu ouvido; ela entra pela minha pele. E dói. É um medo visceral, um frio que sobe pela espinha e me deixa paralisada. Eu sinto que, se eu me entregar demais para essa melodia, eu posso sumir dentro dela.
Mas é exatamente aí que a mágica acontece.
Aos 46 anos, eu ainda preciso desse medo. Porque é esse medo que me tira o chão e me joga direto na minha essência bruta. No dia a dia, a gente usa tantas máscaras, carrega tantos pesos... mas quando Purple Rain começa, tudo cai. Fica só o que é real. Fica a Luciana nua, sem defesas.
No meio do som, eu escuto ele sussurrar:
"Honey, I know, I know, I know times are changing”
“Querida, eu sei, eu sei, eu sei que os tempos estão mudando”.
E eu sinto que o Prince está falando diretamente comigo. Ele sabe. Ele sabe que o tempo passou, que a vida mudou, que eu mudei. Mas quando ele canta isso, ele me dá a mão e me diz que está tudo bem a gente se sentir assim, meio perdida no meio da chuva.
Essa música é minha. É um pacto de fidelidade que eu firmei ainda criança e que ninguém consegue traduzir. É uma entrega que me rasga e, ao mesmo tempo, me deixa leve, como se eu estivesse flutuando num vazio onde só existe o som.
Ela me tira tudo. Ela me tira a fala, me tira a lógica, me tira a segurança. E, depois que ela faz esse estrago todo, ela me devolve para mim mesma. Mais inteira. Mais viva.
Não é só uma canção. É o gênio do Prince traduzindo o som do meu próprio silêncio, aquele que eu entendi aos 4 anos, antes mesmo de saber falar direito. É o roxo que me habita, que me assusta e que, no fim de tudo, é o único lugar onde eu me sinto realmente em casa.