A música que chorava
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 26 de Maio de 2026 ás 19h 37min
A Música que Chorava
Deixem que chore a menina…
Enquanto houver pranto e se ouvir o eco da dor nos seus olhos,
podeis ter certeza: haverá música viva nos seus dedos…
Toca, ó criança, a melodia silenciosa,
aquela canção eterna e secreta
que só os ouvidos dos anjos são capazes de escutar…
Deixem-na, pois, que chore à vontade.
O choro dela não é fraqueza, é pura poesia
que se derrama suavemente sobre as teclas do piano.
E assim ordenava o Rei, com voz severa e autoritária:
— Toca, menina! Toca sem cessar, até que os teus dedos frágeis se abram e sangrem,
e as tuas lágrimas, vastas como rios de água pura,
desçam e se espalhem por todo o teclado da tua própria alma!
Toca para que a melodia imensa que vive dentro de ti,
alimentada pela dor e pela beleza,
jamais se cale ou morra para sempre…
Mas chegou, enfim, um dia de chuva imensa e escura,
onde o céu parecia chorar junto com o mundo…
E nesse dia, a menina não tocou mais.
As suas mãos, outrora tão ágeis e cheias de vida,
estavam frias, duras e imóveis sobre o vazio.
E o Rei, ao entrar e ver o silêncio que reinava,
percebeu, com um arrependimento tardio e amargo,
que já não havia mais nenhum som a nascer daqueles dedos.
Pois aquela pobre e pequena criança,
que durante toda a sua vida chorava música por dentro,
havia finalmente se esgotado…
E com ela, calou-se a única melodia verdadeira que existia.