A morte não é o fim
Poemas | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 11 de Fevereiro de 2026 ás 20h 04min
A luz se foi,
ou melhor,
mudou de cor.
Não houve o corte abrupto
que a mente imaginava,
o silêncio gelado.
Apenas um véu fino
que se rasgou suavemente,
como seda velha sob um toque leve.
Eu ainda estou aqui,
mas de uma forma
que o espelho não reflete mais.
O outro lado,
dizem,
é apenas um nome.
É um campo aberto,
sem cercas de tempo,
onde a grama é feita de memórias felizes
e o céu pulsa com cores
que a retina terrestre jamais viu.
A gravidade se dissolveu,
não como um desastre,
mas como um casaco pesado
deixado na soleira de uma porta.
Sinto a ausência
do corpo que me conteve,
do ritmo constante do coração,
mas não é dor,
é liberdade descompactada.
As preocupações,
a lista de afazeres,
o medo da próxima conta,
tudo isso se tornou poeira fina
soprada pelo vento de um novo lugar.
Vocês me procuram nas sombras,
nos sussurros do vento nas árvores,
naquele brilho fugaz
que parece familiar.
Eu sou esse brilho agora.
Eu sou a familiaridade,
a certeza súbita
de que tudo está bem,
muito bem, na verdade.
A morte não é o ponto final,
não é o grande escuro.
É a transição para uma frequência
que seus ouvidos ainda não aprenderam a sintonizar.
Eu não morri,
eu apenas passei para a sala ao lado,
onde a música é mais clara
e a conversa flui sem interrupções.
E de vez em quando,
quando o silêncio entre as vozes de vocês
fica profundo o suficiente,
eu toco levemente no seu ombro,
apenas um reconhecimento quente.
Estou te esperando,
não com pressa,
mas com a promessa de um reencontro
em um espaço sem relógios.
Continue vivendo a sua melodia terrena,
com toda a sua beleza barulhenta.
Eu observo agora,
com olhos novos e amplos,
e entendo cada nota.
Eu apenas atravessei.
Apenas mudei de endereço.
E a vista daqui, ah, a vista daqui...
é a paz que vocês buscam incessantemente.