A lenda do canto do arcanjo
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 11 de Maio de 2026 ás 18h 30min
A Lenda do Canto do Arcanjo
Conta a noite mais antiga
que antes do primeiro cometa
rasgar o ventre do universo,
um arcanjo de asas transparentes
atravessava as nebulosas
como quem atravessa jardins de silêncio.
Ninguém sabia seu nome.
Os astros o chamavam apenas
de O Guardião das Vozes Perdidas.
Dizem que ele não falava —
cantava.
E seu canto era tão baixo,
tão delicadamente triste,
que somente os despertos
conseguiam ouvi-lo.
Entre vielas adormecidas,
onde lampiões cansados
choram luz sobre pedras frias,
ele caminhava invisível,
envolto em poeira cósmica
e perfume de estrelas mortas.
Os homens distraídos
não percebiam sua passagem.
Mas os que carregavam
um oceano secreto dentro do peito,
erguiam lentamente os olhos
ao ouvir aquela melodia distante,
como um sino afundado no céu.
Então começavam a lembrar.
Lembravam-se de um lar
que nunca haviam visto,
mas que suas almas conheciam
antes mesmo do nascimento da aurora.
O arcanjo cantava baixinho
entre vielas e nebulosas:
— “Voltem...
há um jardim aceso além do medo.
Há rios de constelações
esperando os cansados da Terra.”
E os despertos choravam
sem entender por quê.
Porque havia naquele canto
uma saudade antiga,
uma lembrança de asas,
um eco de eternidade
esquecido sob a carne humana.
Nas madrugadas de inverno,
quando o universo parece suspenso
sobre os telhados do mundo,
alguns ainda juram ouvi-lo.
Um canto leve,
quase confundido com o vento,
atravessando corredores do infinito.
Então as janelas tremem.
As flores inclinam suas pétalas.
E até as estrelas silenciam
para escutar o arcanjo
chamando seus filhos perdidos
de volta para casa.