A infância ouvida pela janela

| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Liliane Inácia da Silva
Publicado em 30 de Maio de 2026 ás 16h 54min

É natural que os adultos guardam recordações da infância dentre muitas estão os cheiros e os sabores como: o cheiro da terra molhada no início da chuva, as guloseimas da vovó. Outros ainda lembras dos joelhos e cotovelos ralados ao cair de bicicleta, ou das brincadeiras corriqueiras como pegador, perna de pau, pé de lata, apostar corridas e até tombo de árvore. Mas tem os que lembram dos banhos nos córregos e mergulhos nos rios.

Mas há uma criança específica que guardou outras recordações; o cheiro de diferentes chás: de poejo, de guaco, de gengibre, de folhas de tudo que se conhece e outras que ninguém sabia ao certo o nome, mas que acreditavam que podiam fazer algum milagre. Chás de vários aromas e sabores, amargos, doces, mornos, fumegantes. Pois a bronquite chegou decidido a ocupar os espaços na infância.

As demais crianças exploravam o mundo de forma plena e natural os pés descalços, o vento no rosto durante as corridas desesperadas e infantis, a roupa grudada no corpo molhada na chuva, o grito de alegria no quintal, mas a criança específica o conhecia pela janela do quarto ouvindo as crianças do lado de fora. Ela não podia vivenciá-lo! A chuva para ela não era brincadeira. Era som de ameaça! O vento não era aventura. Era risco eminente!  A água fria não podia beber e nem se divertir. E sim, perigo na risca! Até o sol, que parecia tão inofensivo, era filtrado e não recomendado! Brincar na terra, nem pensar!

A cama era porto seguro, refúgio durante as crises que chegavam sem avisar e transformava algo tão simples natural em uma batalha nada silenciosa que era a dificuldade em respirar. Houve noites em que ninguém dormiu. A mãe ouvia cada respiração forçada. Enquanto o pai observava atentamente cada movimento como sinal de preocupação nos olhos dos adultos.

Aprendeu, que respirar não se trata de um ato mecânico, mas de um privilégio que a maioria das pessoas sequer notam. Hoje, ao observar as crianças correndo livremente ou embaixo da chuva, nota com saudade de algo que nunca viveu. Saudade de uma infância que foi ouvida, mas não vivida. Mesmo assim, aprendeu algo valioso: a infância é construída de várias formas, umas com brincadeiras outras sobre cuidados, renúncias, dedicação, pequenas e grandes vitórias diárias!

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