A FREIRA DE COVADONGA
| Narratica | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Bernadete Crecencio LaurindoPublicado em 29 de Abril de 2026 ás 17h 10min
A Freira de Covadonga
Éramos um grupo de turistas, de diversas nacionalidades. Estávamos em Madrid, Espanha, de onde partimos, madrugada alta, num roteiro de ônibus, a conhecer o Norte daquele país.
Alguns dias de viagem, conhecendo o fantástico mundo hispânico europeu, visitando lugares cujos nomes não me eram estranhos, pois remetiam às lembranças de adolescente, nos estudos de Geografia e História Geral, do então Ensino Colegial, nível médio.
A guia de turismo, apesar de seu Espanhol castiço, dava-me condições de ouvir e reconhecer nomes de heróis e de lugares que, tempos (muitos atrás), eu tínha escrito em cadernos de apontamentos, na escola.
Seguindo-nos de longe, as geleiras brancas dos Picos da Europa, a lembrar os cristãos de Hispânia que derrotaram os Mouros, há séculos e séculos, dando o primeiro passo para a criação da Espanha.
Lutas e séculos, séculos de lutas depois, entre vitórias e derrotas, visigodos vêm, visigodos vão, romanos vêm, romanos vão, muçulmanos vêm, muçulmanos vão e vem a Reconquista e nasce a Espanha.
Tudo como meus professores contavam nas encaloradas aulas, nos verões escaldantes, quando não se conheciam ventiladores, muito menos, artifícios e sistemas de condicionamento de ar.
O que não aprendi, nos idos anos do Colegial, foi a Língua Espanhola.
Nessa viagem, conhecemos edificações milenares, como igrejas, catedrais, mosteiros, castelos e suas histórias.
Com o passar dos dias, ouvindo Espanhol, do amanhecer ao anoitecer, os ouvidos começam a se familiarizar e a entender alguma coisa do idioma, mas a falta da Língua Pátria trazia como que um certo desalento.
Entre inumeráveis lugares históricos, estivemos na sala do Mosteiro Franciscano de Santa Maria de La Rábida, na Andaluzia, onde Cristóvão Colombo apresentou aos Reis de Castela, Fernando e Isabel, seu projeto de navegação, com o fim de descobrir novas terras.
Aquele recinto emanava uma energia inexplicável, uma sensação que provocava arrepios; viam-se ali, móveis, como a mesa usada no jantar oferecido pelos Frades Franciscanos a Cristóvão Colombo e aos Reis de Castela, e eu, agora, sentada à mesma mesa... Vi muitos objetos usados por Colombo, nas navegações. A um canto, um imenso baú, onde ele transportava seus objetos pessoais.
Lembrei-me de uma frase que meu pai dizia: “Vão-se os dedos, ficam os anéis...”
Rumávamos ao Norte da Espanha, passando por Galiza, ou Galícia, Astúrias, Cantábria e País Basco, regiões que integram o Norte da Espanha.
Chegamos a Lugo, com sua muralha medieval altíssima, impressionante, cercando uma antiga vila. De lá, a Taramundi e Oviedo, a mais importante cidade do Principado das Astúrias, com seu fantástico museu arqueológico. Depois, a Cangas de Onís, à costa da Cantábria, com sua identidade cultural marcante, suas histórias, monumentos e construções milenares.
Observam-se, em regiões específicas do Norte da Espanha, línguas cooficiais, como o Euskera e o Galego.
A falta da Língua Pátria já se fazia sentir. Era saudade, nostalgia, pela ausência da familiaridade do linguajar.
Singramos o mar Cantábrico, ao norte da Espanha, com barco a vela. Vento brincando com os cabelos, sol iluminando alegres risos. Sobre ondas amenas, dançamos e bailamos ao som e ao embalo de “Dale a tu cuerpo alegría, Macarena! Hey Macarena, ay!”
Chegamos depois a Arriondas e finalmente, a Covadonga, nas Astúrias, último ponto de nossa viagem.
Os dias que se acumulavam traziam saudade do som familiar do idioma pátrio, que eu não ouvia, em todo esse tempo.
Era ao amanhecer.
O ônibus que nos levava parecia com dificuldades de enfrentar o caminho íngreme, subindo dificultosamente, a encosta. Uma névoa cobria tudo à volta. As árvores à margem da estrada, assim como toda paisagem, estavam envoltas por espessa bruma. Uma percepção visual, dando a impressão de paisagem onírica; era o que se via.
Por alguns momentos, pudemos visualizar, lá no topo da montanha, a catedral, uma catedral milenar imponente, entre as rochas. Era de uma beleza impressionante. Por entre as expressões de deslumbramento, manifestas em Espanhol, Francês, Inglês, minha alma brasileira exclamou em escancarado Português: “Meu Deus, que beleza é essa?!”
O ônibus, finalmente, subiu. Foi estacionado no imenso pátio que o esperava, entre centenas de outros.
Lá em cima, o sol que surgia por detrás da montanha dissipava a névoa.
Foi quando olhei à direita, a uns 500 metros e me vi diante da catedral que vislumbrara na subida, por instantes, entre a névoa.
Ali estava a Basílica de Santa Maria la Real de Covadonga, situada nas Astúrias, Espanha, no coração dos Picos da Europa.
Encantada pelo cenário, deixei o burburinho das lojas que atendiam os turistas e me dirigi à igreja, por uma trilha cercada de flores que conduzia até lá. A construção era deslumbrante, capaz de exercer um fascínio que, inexplicavelmente, embevecia. Imensas portas frontais e torres altíssimas e esguias, que pareciam alcançar os céus, compunham a edificação secular.
Entrei. O deslumbramento provocado à vista do exterior não se comparava ao fascínio pela visão da cena agora contemplada.
Sem palavras para descrever a suntuosidade da edificação, deparo-me com um ambiente silencioso, iluminado por uma luz fraca, suave. À frente, quase interminável corredor. Extasiada e feliz, caminho por entre bancos, em direção à proximidade do altar, onde uma missa estava sendo celebrada. No primeiro banco, em frente ao altar, algumas freiras, vestidas em seus hábitos pretos, que apenas mostravam o rosto, participavam da Celebração. Não havia som, amplificadores de voz; para ouvir, precisei chegar bem perto, e então, pude acompanhar as orações (mas as rezei em meu idioma).
A postos com o celular, mal conseguia me deter sem tirar fotos, respeitando o Divino Momento.
Ao término da Celebração, em fila, as freiras se encaminharam à saída. Circunspectas, sem sequer o esboço de um sorriso, uma a uma, elas passavam por mim.
A essas alturas, ciente de que eu estava lá nas lonjuras, nos confins da Espanha, diante daquela cena e daquele cenário, eu sentia todas as fibras do meu corpo em efervescência. Eu precisava registrar aquele quadro. E elas passavam, uma a uma; e eu e o celular em alerta, mas a sisudez das religiosas me desencorajava.
Meu celular a postos e minha atenção em alerta máximo. Vi, lá ao fim da fila, a última freira seguindo em minha direção. A última da fila. Muito jovem, parecia uma adolescente. Rezei interiormente, em bom Português, para que ela me desse uma chance de tirar uma foto. E ela, vindo, fila afora...
Aprumei-me, celular abaixado, mas pronto; abri um sorriso, tentando simular uma respeitável timidez, mas a essas alturas, de tímido, não tinha nada o meu sorriso, eu queria mesmo era não perder aquela chance.
Quando ela se aproximou, olhando para mim, com um sorriso afável, acolhedor e lindo, eu apresentei o celular e disse, em enrolado Espanhol:
- ¿Puedo?
Meu coração pulava, rebeldemente; sei lá se eu estava falando certo, a ponto de ela me entender, sei lá... Pelo menos eu tinha tentado.
Aproximando-se de mim, eu ouvi, em cristalino e mavioso Português:
- PODE!
Seguimos juntas, à saída. Tirei muitas outras fotos, conversamos efusivamente (em Português), rimos, numa alegria brejeira, divertida e pude saber que ela era brasileira, mineira de Montes Verdes, que seu nome era Luciana e que estava ali por um projeto social da Igreja Católica, relacionado ao acolhimento de meninos de rua.
Ao fim do dia e de tantas emoções, já no ônibus, de volta a Madrid, lembrei-me que me esqueci de perguntar como a Irmã Luciana percebeu que eu era brasileira...