A FORMIGA QUE QUERIA SER NUVEM
| Fábula | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Eidi MartinsPublicado em 27 de Outubro de 2026 ás 14h 13min
A formiga Belinha passava os dias carregando folhas e sementes. Trabalhava tanto que mal tinha tempo de olhar para o céu.
Até que, numa manhã, uma nuvem enorme passou devagarinho por cima do formigueiro.
Belinha largou a semente que carregava no chão e disse em voz alta:
— Que vida boa!
Ela suspirou e continuou:
— A nuvem não carrega nada, não tem chefe e ainda passeia pelo mundo inteiro. Quero ser nuvem!
O besouro Formoso, que descansava debaixo de uma folha, ouviu a fala de Belinha e disse:
— Mas você nem sabe o que é ser nuvem!
Belinha respondeu:
— Sei, sim! É ficar fofinha, passear e não fazer coisa alguma.
Belinha passou o resto do dia tentando descobrir como crescer. Comeu três folhas, bebeu água de uma poça e subiu numa pedra para ficar mais perto do céu.
Quando a tarde chegou, uma ventania soprou pelo campo. A nuvem foi levada para longe, encolheu e desapareceu atrás de um morro.
Belinha ficou desapontada e disse:
— E agora? Como vou virar nuvem?
Formoso coçou a cabeça e tentou consolá-la.
— Talvez você devesse perguntar a uma.
Naquela noite, Belinha encontrou uma nuvenzinha passeando e chamou por ela:
— Ei, nuvem! Você gosta de ser nuvem?
A nuvenzinha respondeu:
— Gosto de passear, mas às vezes o vento me leva para lugares onde não quero ir. Quando fico cheia de água, preciso chover. E, quando o sol esquenta demais, posso desaparecer.
Belinha arregalou os olhos e perguntou:
— Então você também tem suas dificuldades?
— Claro! — respondeu a nuvem. — Outro dia, passei horas tentando chover sobre um jardim, mas o vento me empurrou para cima de uma montanha. As flores ficaram com sede, e eu fiquei triste, me sentindo inútil.
Belinha pensou um pouco e concluiu:
— Sabe, eu também tenho dias difíceis. Às vezes, carrego uma folha tão grande que mal consigo enxergar o caminho. Mas, quando chego ao formigueiro, todos comem.
A nuvenzinha sorriu e concordou:
— Parece que nós duas fazemos coisas importantes, cada uma do seu jeito.
No dia seguinte, Belinha voltou ao trabalho. Encontrou uma semente caída no caminho, e Formoso ajudou a empurrá-la até perto do formigueiro. Os dois deram tantas risadas que o serviço ficou leve.
Lá em cima, a nuvenzinha passou pelo campo e deixou cair uma chuva fina sobre a terra.
Meses depois, nasceu uma árvore naquele lugar. Suas raízes abrigaram o formigueiro, seus galhos deram sombra ao besouro e suas folhas receberam a visita da nuvenzinha nos dias quentes.
Belinha nunca mais quis ser nuvem.
Mas, de vez em quando, deitava-se sobre uma folha, olhava para o céu e acenava para a amiga.
A nuvenzinha respondia com uma chuvinha delicada, só para molhar a pontinha de seu nariz.
Moral da história: Não precisamos ser iguais aos outros para termos valor. Cada um tem seu jeito de fazer o bem no mundo.