A folha que o outono matou

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 12 de Março de 2026 ás 11h 21min

Eu sou a folha que o outono beijou na ternura fria, matou.

 

Um sussurro verde que se fez ouro,

e depois,

a cor da despedida rouca.

 

Caí da altura,

não com a fúria da tempestade,

mas com a rendição lenta de quem já viu o sol de todos os verões.

 

Agora, o chão é meu leito e minha prisão.

Tão fina, tão seca,

que o vento mal me nota ao passar.

 

Meu silêncio é uma pressa espessa,

um peso mudo sob a poeira fria.

É o grito não emitido da clorofila que se foi.

 

O murmúrio das raízes que ainda prendem o tronco nu,

parece distante,

uma canção de outra vida.

 

E eu,

nesta quietude quebradiça,

contemplo o azul imenso que me roubou o calor.

 

Minha textura, antes vibrante,

agora é papel amassado guardado na memória da terra.

 

Sou testemunha do ciclo breve,

da beleza que é intrinsecamente finita.

Vi a promessa da seiva subir,

e agora sinto a promessa do nada descer.

 

Minha forma curva,

um mapa desgastado do caminho percorrido,

é tudo o que resta da minha dança ao vento.

 

E este silêncio,

este volume compacto de ausência,

é uma súplica.

 

Não por voltar, não por reviver a luz de maio,

mas por ser notada neste esquecimento vasto.

 

Uma súplica aos céus abertos,

sem nuvens, sem resposta clara,

apenas a indiferença fria da altura.

 

Que meu fim seja útil,

que eu me decomponha rápido,

que alimente a sombra que virá.

 

Que este meu silêncio denso,

esta minha morte fina,

seja lido como a prece mais antiga:

a aceitação do adeus sob o olhar severo do inverno que avança.

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