A FLORESTA DESCONECTADA
| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Fátima CordelistaPublicado em 20 de Outubro de 2026 ás 17h 18min
A FLORESTA DESCONECTADA
O Dia em Que os Bichos Decidiram Não Voltar Mais
Passaram-se sete sóis desde a Hora do Desconectar.
No oitavo dia, a Coruja chegou toda animada com a cestinha de palha cheia de celulares brilhando:
-Hora de devolver, pessoal! Já conversaram bastante!
Mas ninguém levantou a pata.
O Macaco foi o primeiro a falar:
- Coruja, ontem eu descobri que meu filho sabe imitar o vento. Eu nunca tinha ouvido. Porque eu estava sempre de fone.
A Capivara continuou:
- Ontem eu e o Coelho ficamos duas horas olhando o rio passar. Sem postar. Sem filmar. Só olhando. Foi a tarde mais feliz da minha vida.
O Leão, que antes rugia pra câmera, rugiu pra floresta de verdade. E todos os bichos sentiram o chão tremer. Ele disse:-Meu rugido não é conteúdo. É meu coração avisando que estou vivo.
Aí a pequena Abelha, que quase ninguém ouvia, zumzumzou bem baixinho:
-Eu achei que se eu não postasse meu mel todos os dias, ninguém ia gostar de mim. Agora eu vi que quem gosta do meu mel vem na minha colmeia me visitar.
A Coruja ficou em silêncio. Pela primeira vez na vida, ela não tinha uma resposta pronta do Google. Foi a Tartaruga quem resolveu:
- A gente não vai jogar fora. Não vamos quebrar. A gente só não vai mais morar lá dentro.
E assim fizeram. Pegaram todos os celulares e levaram para o topo da Montanha do Esquecimento. Não jogaram fora. Construíram uma Casa de Visitas.
A Casa funcionava assim: Se algum bicho precisasse falar com um parente distante, ou aprender algo novo, ou pedir ajuda quando estivesse perdido, ele subia a montanha, usava com calma, e depois descia. E deixava o aparelho lá. O celular deixou de ser coleira e virou ferramenta.Deixou de ser praça e virou ponte.
O Coelho não mandava mais meme pra Capivara do lado. Ele contava piada e via ela rir na frente dele. Gargalhada sem filtro.
O Elefante não postou mais saudade da mãe. Ele deitou a cabeça no colo dela todas as tardes .E à noite, em vez de cada um brilhar sozinho no seu quadrado, eles acenderam uma fogueira grande no meio da floresta.
E a luz da fogueira iluminava o rosto de todo mundo junto.
De longe, a floresta que antes brilhava com cem telinhas piscando, agora brilhava com um fogo só. Um fogo só, mas que aquecia todos.
A Coruja anotou no seu caderninho, à mão, sem digitar:
- "Descobri hoje que estar junto não é estar conectado. É estar presente.
E presença não tem Wi-Fi. Tem alma."
MORAL: Não é preciso destruir a tecnologia para salvar a amizade. É preciso só lembrar quem é o dono de quem. Que seja o bicho que use o aparelho, e nunca o aparelho que use o bicho.