A FLORESTA CONECTADA
| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Fátima CordelistaPublicado em 20 de Outubro de 2026 ás 17h 14min
A FLORESTA CONECTADA
Era uma vez uma floresta onde todos os bichos ganharam um celular.
Foi a Coruja, que se dizia moderna, quem trouxe a novidade lá da cidade.
Agora vocês vão poder falar com todo mundo, sem sair do lugar! - ela gritou.
E foi uma festa.
O Macaco criou um grupo chamado "Galera da Bananeira".
O Leão virou blogueiro de rugidos.
A Arara começou a fazer dancinha todos os dias no galho mais alto.
Até a Tartaruga, que andava devagar, aprendeu a digitar depressa.
No começo, parecia lindo.
Todos conectados.
Mas com o tempo, uma coisa estranha aconteceu.
Eles começaram a se reunir debaixo da Grande Árvore, como faziam antigamente. Só que agora, cada um ficava num canto, olhando para sua telinha brilhante.
O Coelho estava do lado da sua melhor amiga, a Capivara, mas em vez de conversar com ela, mandava meme para ela. E a Capivara ria sozinha, olhando para o celular, sem olhar para o Coelho.
O Elefante estava com saudade da sua mãe, que morava do outro lado do rio. Ele estava na frente dela. Poderia abraçá-la. Mas preferiu postar: "Saudade da minha mãe #familia #amor". A mãe dele curtiu. Sem abraçar.
O Papagaio, que sempre repetia tudo que ouvia, percebeu o silêncio. Aquele silêncio esquisito. Não era o silêncio bom, de paz. Era o silêncio de gente junta, mas sozinha. Ele então voou para o meio da roda e gritou:
- GENTE! A GENTE TÁ JUNTO E TÁ SEPARADO!
Todos levantaram a cabeça, assustados. Olha pra do lado! - disse o Papagaio. - Seu amigo está aí, vivo, quente, respirando. E você está falando com um estranho que mora longe!
A Tartaruga, devagar e sempre, foi a primeira a desligar o celular. Ela olhou para o Macaco nos olhos e disse:
Há quanto tempo eu não vejo a cor do seu olho?
O Macaco chorou. Porque não lembrava.
Naquele dia, eles fizeram um trato: criaram a Hora do Desconectar.
Toda tarde, quando o sol se punha, todos os celulares ficavam numa cestinha de palha, no centro da roda. E eles voltavam a fazer o que faziam antes: contar histórias, dividir frutas, coçar as costas um do outro e rir alto, sem precisar gravar.
E descobriram que a melhor rede social que existe é feita de olho no olho, de pele, de cheiro de mato e de presença.
A Coruja, que tinha trazido os celulares, aprendeu no fim:
Eu trouxe conexão para floresta. Mas vocês me ensinaram o que é está conectado de verdade.
MORAL DA HISTÓRIA:
O celular pode te levar para o mundo inteiro, mas só o abraço te traz de volta para casa. Não deixe o aparelho que conecta todo mundo ser o mesmo que te desconecta de quem está do seu lado.