A estrela em teu rosto
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Setembro de 2026 ás 06h 38min
A Estrela em Teu Rosto
Rosy Neves
A chuva molhava os cajus
arrebentados no chão,
e uma paz sombrolenta
subia da terra úmida
onde meus pés caminhavam.
Havia cheiro de chuva,
de folhas feridas,
de frutos esquecidos
pela boca do tempo.
E eu caminhava em silêncio,
como quem procura alguma coisa
que perdeu antes mesmo
de saber que possuía.
Longe, na varanda,
um olhar me observava.
Não dizia meu nome,
não fazia nenhum gesto,
apenas permanecia ali,
guardando-me à distância.
Parecia um protetor
chegado de alguma fronteira
que meus olhos humanos
não poderiam atravessar.
Mas aquele olhar
não era deste mundo.
Havia nele
a imensidão das noites antigas,
o silêncio dos astros
e uma estranha ternura
que parecia conhecer
todas as minhas tristezas.
Então eu olhei para teu rosto
e vi uma estrela.
Uma pequena estrela acesa
no lugar onde deveria haver
apenas pele e sombra.
E naquele instante compreendi
que talvez algumas almas
não se encontrem nesta vida
por acaso.
Talvez venham de muito longe,
atravessando mares cósmicos,
constelações esquecidas
e caminhos que a morte
não consegue apagar.
Fiquei ali,
sob a chuva,
com os pés na terra
e a alma suspensa no infinito.
E aquela estrela em teu rosto
parecia dizer, em silêncio:
“Eu já te conhecia
antes que o céu aprendesse
a pronunciar teu nome.”
Desde então,
quando a chuva cai
sobre os cajus arrebentados
e a terra respira
sua paz sombrolenta,
eu ainda procuro
aquele olhar na varanda.
Porque há protetores
que não pertencem ao mundo,
mas deixam uma estrela
acesa em nosso caminho
para que jamais nos percamos
dentro da noite.