A dor
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 27 de Maio de 2026 ás 19h 43min
A Dor
A dor mora numa casa antiga e calada,
escondida bem atrás dos olhos humanos.
Lá dentro, ela acende lamparinas de saudade
nos longos e silenciosos corredores da alma.
Às vezes, ela chega devagar…
suave e persistente,
como chuva fina caindo sobre jardins abandonados.
Outras vezes, não avisa: desaba inteira e violenta,
tal como um céu imenso que se despedaça e cai,
espatifando-se por todo o nosso peito.
Há noites em que a dor se senta ao meu lado,
bem na beira cansada e fria do mundo.
E ali, em absoluto silêncio, enquanto olhamos as estrelas,
ela, com paciência, penteia os meus sonhos que já morreram,
com os seus dedos longos, frios e feitos de eternidade.
Ah, como pesa sobre os ombros a terrível ausência…
Como dói, profundamente, ouvir apenas o eco distante
dos nomes e das vozes que o tempo, implacável, levou.
O meu coração parece um barco à deriva e perdido,
navegando sem rumo por um oceano escuro e sem faróis,
carregando consigo apenas retratos molhados pelas lágrimas
e flores que jamais conseguiram chegar até a sua primavera.
Silêncio…
Pois há lágrimas caindo, invisíveis, dentro de mim.
Mas a dor também é uma estranha e misteriosa jardineira:
ela pega as tristezas mais profundas
e as enterra na terra escura e fértil da alma.
E então, mesmo sem querer, sem perceber,
ela faz nascer, brotar e florescer
a mais pura poesia,
bem no meio das ruínas do que fomos.
Talvez seja exatamente por isso
que aqueles que já choraram e sofreram profundamente,
são os únicos que carregam estrelas escondidas,
brilhando com força,
dentro dos próprios abismos.