A chuva e a lágrima
| Prosa Poética | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Romeu DonattiPublicado em 21 de Setembro de 2026 ás 20h 39min
Os galhos envoltos em seus tecidos corporais embarcaram numa canoa de desejos. A correnteza doce do rio sinuoso invadia sua alma de menino pirilampo. Os jacarés, os tuiuiús, as onças e as ariranhas foram testemunhas daqueles beijos. Também da seca e da enchente!
Mansa e densa se aninhou, a chuva, na côncava terra árida; e, pálida, a terra perplexa olhou e molhou o seu seio, envolveram-se, extenuadas, em gozo; e a terra fecundou.
Senti-a úmida e fria a escorrer pela face, afoita, sem disfarce. Uma dor refreada ardia. Um coração partido partia. Uma lágrima-enxurrada descia.
A lágrima encontrou vazão na foz da folha branca, no chão. Refém, o graveto-giz bebeu da nascente e, lânguido, percorreu cada linha. No vertedouro da página lasciva, deixou-se derramar, brotou poesia.
Chuva e lágrima da terra, lágrima e chuva, fim da espera, num instante, uma quimera.
Adiante, seca, chuva, vazante!