A casa amarela

| Prosa Poética | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Djordana Cecília Bombarda
Publicado em 27 de Setembro de 2026 ás 19h 57min

Na minha memória eu guardo a imagem de uma casa que o tempo não consegue apagar: 

A casa amarela dos meus avós. Uma casa que, muito além das paredes, das janelas e das portas, guarda um universo inteiro de afetos.

Um lugar onde a vida acontecia sem pressa, onde a família se reunia e os dias tinham sons de risadas que ainda ecoam nas minhas lembranças.

Nessa casa havia muito mais do que os meus olhos podiam ver.

Havia o invisível que somente as lembranças são capazes de revelar. Havia quadros nas paredes, porta-retratos da família, flores no jardim, pomar, horta, cheiro de grama cortada e de comida boa saindo no fogão à lenha.

Por trás daquelas paredes, moravam os encontros.

A alegria de chegar, o abraço que acolhia, a conversa que atravessava a tarde e as histórias que se repetiam, como se cada palavra tivesse o poder de eternizar quem éramos.

Havia o barulho das cadeiras sendo arrastadas, o movimento de gente chegando, gente saindo, os passos apressados, as vozes que se cruzavam e aquela sensação de que, naquele lugar, sempre cabia mais um neto, um bisneto, um agregado.

A casa amarela tinha o dom de reunir.

Reunia gerações, aproximava corações, costurava laços e fazia do cotidiano uma celebração.

Nela, o amor não precisava de grandes declarações. Ele se revelava jeito acolhedor do avô, no alimento preparado pela avó, na presença de cada filho, neto, parente ou amigo que encontrava ali um lugar para pertencer.

O tempo passou, e meus avós já não estão mais aqui.

Talvez as flores do jardim já não sejam mais as mesmas,  talvez os sons tenham se calado e os encontros tenham diminuído ou tenham tomado outros rumos. 

Mas existe uma casa que continua viva dentro de mim.

A casa amarela que não se desfez com o tempo, porque foi construída com aquilo que não se pode mensurar: o amor dos meus avós.

Hoje, quando lembro da casa amarela, compreendo que o invisível não estava escondido atrás das paredes.

Estava em tudo o que acontecia dentro delas. Estava nos encontros, nos abraços calorosos, nos cheiros que despertam saudades e nas risadas que ainda consigo ouvir.

A palavra, então, faz o que o tempo não pode fazer: abre as janelas da memória, acende novamente as luzes daquela casa e permite que eu atravesse, mais uma vez, o seu portão. E, por um instante, tudo volta a acontecer.

As flores perfumam o jardim, a família se reúne, a casa fica cheia e meus avós estão ali, sentados na caixa de lenha, perto do fogão, se aquecendo do frio, como se o tempo nunca tivesse passado.

Porque há casas que não são feitas apenas de paredes. São feitas de histórias e de tudo aquilo que permanece quando a presença se transforma em saudade.

A casa amarela dos meus avós continua viva em mim. E é pela palavra que o invisível se revela, trazendo de volta aquilo que o coração jamais deixou partir.

Saudade eterna meus amados avós!

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