A Carta
| Cartas Literárias | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Gilmair Ribeiro da SilvaPublicado em 16 de Agosto de 2026 ás 18h 33min
Daniel, meu Mano velho,
Nesta tarde de inverno, em meados de agosto, que mais parece um domingo típico de outono, estou aqui na parte superior da minha casa, espaço que você bem conhece. Abro a janela da biblioteca para a rua castigada pelo sol. O ar seco, o voo anárquico dos pardais em trânsito, sujando a sacada... É chato, mas engraçado.
Por falta do que fazer; ou por rejeição mesmo, passo o tempo olhando os detalhes da última taça de vinho chileno, enquanto tento fazer algo que não faço há aproximadamente quarenta anos: escrever-te formalmente, uma carta.
A última que escrevi nesse formato foi quando namorava a Ana, em meados dos anos oitenta. Sabia que ela guarda uma quantidade considerável das minhas cartas daquela ocasião? Eu era adolescente. Hoje, relendo-as, sinto-me envergonhado. Se tiver a sorte de saber antecipadamente o final da minha pobre existência, pretendo roubá-las e queimá-las.
Nos últimos anos, falávamos bastante ao telefone: você aí de Sumaré e eu cá de Piracicaba, cidade da minha mulher, que adotei. Lembro-me das nossas boas conversas sobre política e sociedade, que normalmente terminavam em futebol e muitas risadas.
Confesso que, depois da sua ausência, fiquei órfão. Não tenho mais com quem conversar sobre política e sociedade de maneira civilizada e inteligente.
Você era o cara!
Como agora não posso te ligar, e os tempos são outros, tenho muita dificuldade em falar com você nesse monólogo, principalmente por saber, de antemão, que não me responderá. Mas não importa. Tento, de alguma maneira, reproduzir o seu sorriso debochado durante a conversa, ou a sua fala exaltada quando se tratava da defesa da democracia e dos direitos individuais.
Se você estivesse aqui hoje, mano velho, ficaria muito triste em saber que a sua macaca, que se tornou meu segundo time depois da sua ausência, está em último lugar na segunda divisão do Campeonato Brasileiro de futebol.
Vai cair, não tem jeito.
Fazer o quê, mano velho?
Outra coisa: lembra da Ana, mulher do nosso irmão? Morreu há pouco tempo, de repente. O Joel ficou sozinho lá no litoral da Juréia. Nossas duas irmãs têm dado uma força para ele. A barra está pesada para o mano mais novo.
E o Marcos, nosso sobrinho, esteve aqui, dia desses, e disse algo que me deixou emocionado. Quando o pai, nosso irmão mais velho, o Oswaldo, morreu precocemente, você o acompanhou durante a adolescência. Por esse motivo, ele o nomeou como segundo pai.
Percebe? Perdeu o pai pela segunda vez.
Triste, não?
Isso você não vai acreditar... Se estivesse aqui, surtaria.
A extrema-direita, depois de todas as bobagens: afrontar a ciência com base em sentimentos e emoções, o descaso com 700 mil mortes, o desprezo pelos direitos humanos; consegue ainda, nas eleições, votos suficientes para chegar a um segundo turno.
Às vezes penso que nosso trabalho pelo Estado Democrático de Direito, pela cultura e pela educação foi em vão.
Não faz mal. Continuamos na linha do Darcy Ribeiro, lembra?
“Não queria estar ao lado dos vencedores.”
Estava me esquecendo: comprei algumas boinas e passei a utilizá-las nas aulas da escola pública, modificando meu estilo. A Ana não gostou, tampouco a Maíra. Mas é uma homenagem silenciosa a você, que gostava de usá-las, assim como o jaleco que utilizo em homenagem ao professor José Antonio Rodrigues.
Ora, como dizíamos:
“A vida também é feita de símbolos.”
Não preciso dizer que você não poderá responder a esta carta. Nós dois sabemos disso.
Mas, dia mais, dia menos, nós nos encontraremos na biblioteca do paraíso.
Até escrevi um poema sobre isso. Na primeira estrofe estão os ausentes da nossa família, na segunda, os da família da Ana.
Lembra da Leona, minha cachorra Akita?
Morreu.
Veja aí se você gosta.
ESPERANÇA
O tempo, esse maldito, remete à longevidade,
sugerindo alegrias, sonhos, conquistas, enfim;
tudo isso, por certo, valeria a pena de verdade,
não fosse a angústia e a dor dessa saudade
de Débora, Daniel, Osvaldo, Dalila e Benjamin.
Tão nobres referências para você e para mim
foram os patriarcas João e Maria — e a Piedade,
que pouco viveu e não merecia a estúpida crueldade...
o Lôli, o Pluto, o Silvester, a Leona — ai, que saudade!
E, na flor da idade, um anjo veio e levou o Joaquim.
A paixão e o sonho construídos na tenra idade
são o que resta ainda vivo em você e dentro de mim...
Um dia, de mãos dadas, viajaremos à eternidade.
E, na biblioteca do paraíso, mataremos a saudade,
abraçando João, Maria, Joaquim, Cecília e a Piedade,
Débora, Daniel, Osvaldo, Dalila e Benjamin.
E quem sabe, ao longe, a Leona esperando por mim.
Piracicaba, 16 de agosto de 2026
Gilmair