O dia passou,
lâmina lenta,
sombra sorrateira,
cortando as horas por dentro.
Esperei.
Porta intacta.
Telefone deserto.
O ar, sem mensageiro.
Enviei pombos de pensamento,
todos voltaram
com o bico vazio.
Nem vinho.
Nem flores.
Nem palavra acesa no peito.
Só o silêncio,
servido quente
em taça de despeito.
A mesa para dois
virou espelho:
eu
e o que não veio.
Tua ausência entrou sem bater,
sem culpa, sem véu,
se sentou na minha frente
e disse sem som:
— Hoje você vai me beber.
Vestiu-me de não-ser,
coroou-me de vazio,
fez morada no meu frio.
Não houve defesa,
argumento ou abrigo,
só o choro abrindo caminho.
E o presente, inteiro,
que deixaste comigo:
chuva nos olhos,
e ninguém
para chamar de destino