A aceitação do Eu

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 16 de Maio de 2026 ás 19h 57min

A Aceitação do Eu

 

de Rosy Neves

 

Passei metade da vida

tentando caber nos olhos dos outros,

como rio que tenta aprender

a forma impossível das pedras.

 

Quis ser jardim sem espinhos,

céu sem tempestade,

mar sem profundidade.

 

Mas toda beleza mutilada

vira silêncio doente.

 

Então compreendi:

a alma não nasceu

para ser prisão de espelhos.

 

Existe dentro de nós

uma criatura antiga,

feita de sombras e auroras,

que pede apenas

o direito de existir.

 

Aceitar-se

não é erguer coroas sobre a cabeça,

nem fingir grandezas.

 

É sentar-se ao lado

das próprias ruínas

sem desviar o olhar.

 

É tocar as cicatrizes

como quem toca

as margens de um rio sagrado.

 

Porque até as estrelas

carregam dentro de si

o peso da escuridão.

 

Neguei meus medos,

e eles cresceram como oceanos.

Neguei minhas lágrimas,

e elas choveram dentro do peito.

Neguei minha fragilidade,

e me tornei estrangeiro

da minha própria voz.

 

Mas no dia em que abracei

minhas imperfeições fatigadas,

algo floresceu lentamente

em meu abismo.

 

Uma paz humilde.

Como se Deus, silenciosamente,

acendesse uma vela

dentro da noite que sou.

 

Hoje já não peço

para ser outro.

Carrego meus destroços

com delicadeza.

 

Há beleza também

naquilo que sobreviveu.

 

E se ainda tremo diante da vida,

não é fraqueza.

Até o vento estremece

antes de atravessar o infinito.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.