Síntese didática do encontro de 26 de setembro de 2026
Dolores FlorPublicado em 26 de Setembro de 2026 ás 15h 48min
O que a palavra deixa em nós
Síntese do encontro de encerramento da leitura de Memórias inventadas
No encontro de encerramento das Manhãs Literárias, concluímos nosso percurso por Memórias inventadas, de Manoel de Barros. Ao longo do mês, aproximamo-nos de uma escrita que rompe as classificações habituais, acolhe aquilo que o mundo considera pequeno e transforma lembranças, objetos, pessoas e elementos da natureza em matéria poética.
A leitura do mês nos ensinou que a memória, na literatura, não precisa reproduzir o passado com exatidão. Ela pode inventá-lo, reorganizá-lo e conceder novos sentidos ao que foi vivido. Em Manoel de Barros, infância e imaginação não permanecem separadas. O menino que observava rios, pedras, insetos, latas, árvores e pessoas tornou-se o escritor que devolveu a essas pequenas existências uma grandeza que não pode ser medida pelas convenções do mundo.
No encontro de hoje, três textos conduziram nossa reflexão final. No primeiro, conhecemos Desprezo, um lugarejo quase apagado do mapa, mas preservado pela memória do narrador. Seus moradores desejavam tornar-se aves, árvores, chão, coisas ou novas pessoas. Esses desejos não eram brincadeiras sem importância. Representavam a vontade de ultrapassar identidades fixas e experimentar outras possibilidades de existência.
O menino queria ser chão para que árvores crescessem nele, conchas se formassem e rios corressem sobre seu corpo. Com essa imagem, o chão deixa de representar inferioridade e passa a significar acolhimento, fertilidade e permanência. Ser chão é permitir que outras vidas aconteçam.
Também nos marcou a personagem Ana Belona, que desejava ser árvore para ter gorjeios e não precisar mais “moer solidão”. Em poucas palavras, Manoel de Barros transforma uma experiência abstrata em imagem concreta. A solidão não é apenas sentida: ela é moída repetidamente, como um trabalho doloroso. O desejo de ser árvore nasce da necessidade de acolher pássaros, sons e companhias.
No segundo texto, encontramos Rogaciano, indígena do povo Guató, vivendo em situação de vulnerabilidade nas ruas de Corumbá. Embora não soubesse ler nem escrever segundo os critérios escolares, ele guardava um conhecimento ancestral transmitido pelo avô, o chamã de seu povo: “Os verbos servem para emendar os nomes.”
Essa gramática, descrita como pobre em extensão e rica em essência, ensina que o verbo não apenas indica uma ação. Ele estabelece relações. Quando o bem-te-vi cospe no chão, o verbo une o pássaro ao chão. Quando o cachorro come o osso, o verbo aproxima o animal daquilo que deseja.
Para os escritores, essa compreensão oferece uma aprendizagem preciosa: escrever também é emendar seres, espaços, tempos, memórias e sentimentos. O verbo pode ligar a personagem ao lugar, a infância ao presente, o objeto ao afeto e aquilo que foi esquecido a uma nova possibilidade de existência.
O texto sobre Rogaciano também nos levou a refletir sobre as diferentes formas de conhecimento. Aquilo que a sociedade poderia interpretar como falta de saber revelou-se uma compreensão profunda da linguagem. Ao colocar o chamã Guató ao lado do linguista Edward Sapir, o narrador questiona a ideia de que a sabedoria pertence exclusivamente aos livros, às escolas e às instituições acadêmicas. Existem saberes preservados pela oralidade, pela experiência e pela memória de um povo.
No terceiro texto, compreendemos que a importância de uma coisa não pode ser medida por seu tamanho, preço ou reconhecimento, mas pelo encantamento que ela produz em nós. Um pingo de sol no couro de um lagarto pode ser mais significativo do que o sol inteiro refletido no mar. Para uma criança, um passarinho nas mãos ou uma boneca de trapos pode possuir mais valor do que uma cordilheira ou um grande edifício.
Manoel de Barros estabelece outra escala de grandeza. Ele coloca de um lado monumentos, diamantes, usinas e motores; do outro, passarinhos, ossos, formigas, águas e rãs. Não pretende negar a importância das grandes construções. Seu gesto consiste em mostrar que o pequeno também guarda uma dimensão imensurável quando estabelece uma relação verdadeira com aquele que o contempla.
Para o poeta, o encantamento é uma forma de conhecimento. O olhar artístico não mede apenas o que existe: ele percebe o que uma coisa desperta, recorda e transforma dentro de nós.
As aprendizagens do mês
Durante a leitura de Memórias inventadas, compreendemos que Manoel de Barros:
- recria a memória por meio da imaginação;
- aproxima infância, natureza e linguagem;
- valoriza restos, objetos, seres e pessoas colocados à margem;
- rompe as combinações habituais entre as palavras;
- transforma sentimentos abstratos em imagens concretas;
- ressignifica aquilo que foi chamado de inútil, insignificante ou desprezível;
- reconhece saberes construídos fora dos espaços institucionais;
- utiliza a oralidade como parte da identidade das personagens;
- deixa sentidos abertos para a participação do leitor;
- encontra grandeza naquilo que o mundo quase não percebe.
Imagem, emoção e sutileza
Ao longo do mês, observamos que a escrita de Manoel de Barros se sustenta em três forças fundamentais.
A imagem permite que vejamos o improvável: um menino transformado em chão, uma mulher que deseja ser árvore, verbos emendando nomes, uma lata sendo incorporada à terra e um pingo de sol tornando-se maior do que o próprio mar.
A emoção raramente é declarada. Ela nasce das situações, dos objetos e das relações. Em vez de dizer que Ana Belona estava profundamente solitária, o autor escreve que ela não queria mais “moer solidão”. A imagem realiza aquilo que uma explicação direta dificilmente conseguiria alcançar.
A sutileza aparece na recusa das respostas fechadas. O poeta não diz ao leitor o que deve sentir nem encerra completamente os significados. Ele oferece imagens e deixa que cada pessoa as complete com suas próprias memórias.
O que permanece para os escritores
A leitura de Memórias inventadas nos mostrou que escrever não é somente dominar técnicas ou escolher palavras consideradas bonitas. É aprender a estabelecer relações inesperadas entre aquilo que vemos e aquilo que sentimos.
O escritor pode encontrar matéria literária em um quintal, uma lata enferrujada, uma palavra da infância, um homem desconhecido, uma boneca de trapos ou um pequeno reflexo de luz. O tema não precisa ser grandioso. O olhar é que precisa estar verdadeiramente presente.
Também aprendemos que uma personagem nunca deve ser reduzida à primeira aparência. Toda pessoa carrega uma história, um pertencimento, uma dor e alguma forma de conhecimento que talvez ainda não tenhamos aprendido a reconhecer.
Manoel de Barros nos convida a escrever perto do chão, não para diminuir a literatura, mas para aproximá-la daquilo que sustenta a vida. Sua obra nos ensina a desconfiar das hierarquias prontas e a perceber que o pequeno, quando tocado pelo encantamento, pode conter um mundo inteiro.
Concluímos este percurso compreendendo que fechar um livro não significa encerrar tudo o que ele iniciou em nós. Algumas leituras permanecem porque modificam nossa forma de perceber as palavras e o cotidiano.
Depois de Memórias inventadas, talvez uma lata já não seja apenas uma lata; o chão, apenas uma superfície; o verbo, apenas uma classificação gramatical; e uma coisa pequena, apenas algo sem importância. Cada uma dessas existências pode guardar uma imagem, estabelecer uma relação e abrir uma passagem para a escrita.
O que levamos de Manoel de Barros é, sobretudo, uma disposição para reaprender a olhar. A poesia não está distante da vida nem reservada aos grandes acontecimentos. Ela pode estar no pingo de sol sobre um lagarto, no cisco recolhido por alguém, no canto das rãs entre as pedras ou na palavra simples que emenda dois nomes.
Terminamos a leitura do mês, mas não encerramos o seu movimento. Aquilo que nos encantou continuará trabalhando silenciosamente em nossa maneira de ler, escrever e reconhecer o mundo.
Manhãs Literárias
Clube de Leitura Família Literária
Palavras que acolhem, inspiram e permanecem.
Fonte: Agência Literária