Silêncio! O amor está florescendo!
No toque suave das pétalas
de um lótus encantado.
A magia do amor,
Toca a minha pele.
Como um perfume raro.
Um amor silencioso!
Que desabrocha, escondido na escuridão,
De um poema, em algum livro esquecido.
Dentre as estrelas....
Silêncio! O amor está florescendo!
É uma magia sombrolenta...
Ao toque suave da música,
Que carrega a noite, em sua melodia....
Silêncio! Silêncio! O amor está á desabrochar!
Espalhando o seu perfume, enfeitiçando os olhos da menina,
Que está cativa de si mesma....
Desse amor tão raro...
Olhando a noite passar em silêncio.....
Ao toque dessa linda melodia...
Que nunca há de cessar....
Silêncio, ao toque do amor. Silêncio!
O poema “O silêncio do amor” insere-se no gênero lírico, mais especificamente na tradição da lírica amorosa em verso livre, com forte presença de imagens simbólicas e construção contemplativa do sentimento.
Classificação:
Gênero: Lírico
Subgênero: Poesia lírica amorosa (intimista)
Forma: Verso livre
Estética predominante: Tendência simbólica e contemplativa
VAMOS APROFUNDAR
O Silêncio como Forma: imagem, sugestão e maturidade emocional na poesia amorosa
A poesia amorosa contemporânea enfrenta um desafio recorrente: como expressar intensidade sem cair na explicitação excessiva? Como preservar o sentimento sem transformá-lo em discurso? A resposta, muitas vezes, está no domínio do silêncio.
O poema “O silêncio do amor” oferece um campo fecundo para essa reflexão. Não se trata apenas de um texto sobre amor; trata-se de uma tentativa de formalizar o amor como experiência silenciosa, sensorial e sugerida. E é justamente nesse movimento que o poema dialoga com questões centrais da teoria literária contemporânea: imagem, lacuna, sugestão e maturidade estética.
1. A imagem como substituição da explicação
Desde os primeiros versos, o poema desloca o sentimento para o campo sensorial:
“No toque suave das pétalas de um lótus encantado.”
O amor não é conceituado, é figurado. A imagem do lótus não é apenas ornamental; ela carrega simbologias de pureza, nascimento e revelação silenciosa. Ao recorrer a elementos como perfume, noite, melodia e pétalas, o texto tenta construir o sentimento por meio de percepções táteis e olfativas.
Esse procedimento aproxima-se daquilo que Paul Ricoeur descreve como função simbólica da linguagem: o símbolo não reduz o sentido, ele o amplia. A imagem, quando bem construída, não explica o amor, ela o torna experienciável.
Entretanto, é importante observar que a força da imagem depende de sua concretude. Quanto mais situada no espaço e no corpo, mais potente ela se torna. A maturidade estética passa pela substituição progressiva da abstração pela materialidade sensível.
2. O “não dito” como espaço de realização da obra
O poema insiste na palavra “silêncio”. A repetição não é casual; ela funciona como eixo estrutural e semântico. Contudo, a questão que se impõe é: o silêncio está apenas nomeado ou efetivamente construído?
Wolfgang Iser, ao tratar da estética da recepção, afirma que o texto literário se realiza nas lacunas. A obra não está completa na página; ela se concretiza na leitura. Nesse sentido, o silêncio mais potente não é aquele anunciado, mas aquele que produz espaço interpretativo.
Quando o poema declara:
“O amor está florescendo”
há uma afirmação direta. A emoção é comunicada de modo explícito. Ainda que sincera, essa declaração reduz a participação do leitor, pois antecipa a conclusão.
Por outro lado, versos como:
“De um poema, em algum livro esquecido.”
“Olhando a noite passar em silêncio...”
já operam no campo da sugestão. Aqui, o amor não é explicado; ele é insinuado por meio da atmosfera. É nesse deslocamento que o texto se aproxima da maturidade estética: quando a imagem substitui a explicação e a sugestão substitui a declaração.
3. Silêncio e maturidade emocional
A diferença entre desabafo e poesia reside no tratamento da emoção. O desabafo é imediato; a poesia é elaborada. O desabafo quer resposta; a poesia organiza experiência.
No poema em análise, não há acusação, nem justificativa, nem exposição circunstancial. Não sabemos quem é o outro, qual é o conflito ou se há reciprocidade. Essa ausência é significativa. O texto não se ancora em biografia; ele busca universalidade.
Roland Barthes, ao discutir o prazer do texto, destaca que a fruição literária nasce do jogo, daquilo que escapa à transparência absoluta. O poema amadurece quando confia no leitor, quando permite que a experiência seja partilhada e não imposta.
A maturidade emocional, portanto, não significa diminuir intensidade, mas dominá-la. É transformar impulso em forma.
4. Repetição e musicalidade
A repetição de “Silêncio!” funciona como refrão e como estratégia rítmica. Ela cria cadência e reforça o tema central. Contudo, a repetição também pode intensificar a literalidade. Quando o silêncio é constantemente anunciado, ele corre o risco de deixar de ser experiência para tornar-se afirmação.
O desafio formal, nesse ponto, é permitir que o silêncio se manifeste na própria estrutura: versos mais contidos, cortes estratégicos, suspensão sintática, economia de explicações.
O silêncio na poesia não é apenas tema; é técnica.
5. Entre o amor impulsivo e o amor maduro
Se pensarmos em estágios da escrita amorosa, impulsiva, defensiva e madura, este poema situa-se em um momento de transição. Ele já abandona o apelo direto ao interlocutor. Não exige retorno. Não implora. Não acusa.
Mas ainda declara o sentimento em alguns momentos.
A passagem do amor declarado para o amor sugerido é um movimento de refinamento estético. Quando o poema consegue comunicar sem afirmar, ele alcança maior densidade simbólica.
6. Considerações finais
“O silêncio do amor” revela um esforço legítimo de construção imagética e atmosférica. Ele se afasta do discurso explícito e aproxima-se da sugestão. Trabalha com perfume, noite, música e escuridão como mediadores sensoriais do sentimento.
O texto evidencia uma consciência estética em formação: já compreende que intensidade não se mede por volume, mas por delicadeza estrutural.
A poesia amorosa amadurece quando aprende a respirar entre as palavras. Quando confia na inteligência do leitor. Quando entende que aquilo que não se escreve também comunica.
O silêncio, nesse caso, não é ausência. É forma.
Fonte: Antologia Entre o toque e o silêncio