Síntese didática do encontro de 12 de setembro de 2026
Publicado em 12 de Setembro de 2026 ás 11h 16min
Manhãs Literárias | Clube de Leitura Família Literária
Síntese didática do encontro de 12 de setembro de 2026
Obra em leitura: Memórias inventadas: a segunda infância, de Manoel de Barros
Textos conversados: “Manoel por Manoel”, “Estreante”, “Lacraia” e “Pintura III”
Eixo do encontro: memória, olhar poético e invenção da linguagem.
O que buscamos compreender
Neste encontro, observamos como Manoel de Barros transforma lembranças em literatura. A memória, em seus textos, não se limita a recuperar acontecimentos: ela os reconstrói por meio de imagens, escolhas de linguagem, humor e reflexão. Lemos para reconhecer como uma experiência vivida pode ganhar sentidos novos quando é narrada.
Percurso da leitura
“Manoel por Manoel” | Um olhar que se forma na infância. Ao lembrar as brincadeiras no chão e a proximidade com os pequenos seres, o narrador apresenta a origem de sua maneira de ver. Uma pedra pode ser lagarto; uma lata, navio. O objeto continua comum, mas a imaginação amplia suas possibilidades. Sua ideia de “comunhão” sugere uma relação de participação com as coisas, anterior à necessidade de classificá-las ou compará-las. Até o paradoxo “o escuro me ilumina” faz sentido dentro dessa visão poética: palavras aparentemente contrárias podem produzir uma descoberta.
“Estreante” | Memória, corpo e linguagem. O relato da adolescência combina frases breves, repetições e fala cotidiana. O narrador deixa que o embaraço e o desejo apareçam gradualmente, sem explicá-los de saída. A aproximação entre sensualidade, animalidade e imagens religiosas é um traço marcante do texto. Para a leitura coletiva, interessa perceber como o ritmo e as palavras escolhidas constroem uma experiência afetiva e corporal, em vez de tratar a passagem apenas como relato de um fato passado.
“Lacraia” | Imaginação e consequência. A comparação da lacraia com um trem nasce de seu corpo segmentado e de seu movimento. Quando as crianças cortam o animal, a brincadeira se revela uma “malvadeza”, como reconhece o narrador. A narrativa desloca nossa atenção para o espanto diante da capacidade de recomposição da lacraia e para a pergunta ética sobre o gesto dos meninos. Mais tarde, a lembrança reaparece na criação de um verso sobre montar um ser com pedaços de si. A experiência infantil, portanto, não fornece apenas um assunto: ela pode se transformar em imagem literária anos depois.
“Pintura III” | Escrever para descobrir. Manoel tenta desenhar a manhã sem lápis, fazendo da palavra sua matéria. Ao humanizar um momento do dia, dá corpo à manhã e cria uma cena de vitalidade e sensualidade. O avô reconhece na imagem um sentido que o narrador só compreende depois de criá-la. O texto mostra que a escrita pode começar pela experimentação e que a leitura de outra pessoa pode revelar possibilidades não previstas pelo autor.
A linguagem de Manoel de Barros
Ao longo dos textos, notamos palavras e construções inesperadas, comparações improváveis, repetições, paradoxos e mudanças de sentido. Essa liberdade não equivale a escrever sem atenção à língua. Manoel trabalha a linguagem para fazer o leitor ouvir e enxergar de outro modo. Sua prosa frequentemente adquire densidade poética: narra uma experiência, mas também cria imagens e deixa sentidos em aberto.
Uma chave útil para os participantes é observar as três forças da escrita que permanece.
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Força |
Pergunta de leitura |
Exemplo observado |
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Imagem |
O que o texto nos faz ver? |
A lacraia como trem; a manhã com corpo de mulher. |
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Emoção |
O que a cena nos faz sentir? |
O encanto, o embaraço, o espanto e o desconforto. |
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Sutileza |
O que o texto sugere sem esgotar? |
Os sentidos que o leitor descobre e que, às vezes, surpreendem o próprio narrador. |
Proposta de escrita
Escolha uma coisa comum do seu dia e escreva de duas a quatro linhas que ajudem outra pessoa a vê-la de modo novo. Pode ser uma janela, uma xícara, uma árvore, um cheiro ou um ruído. Primeiro, registre a imagem sem explicar o sentimento. Depois, releia e pergunte: o que apareceu no texto que eu não havia planejado?
Questões para continuar a conversa
- Qual objeto comum passou a parecer diferente depois da leitura?
- Em “Lacraia”, quando a brincadeira muda de sentido para o narrador e para você?
- Que descoberta uma leitura feita por outra pessoa pode trazer ao texto que escrevemos?
- Como deixar espaço para que o leitor construa sentidos sem explicar cada imagem?
Para guardar do encontro: na escrita de Manoel de Barros, observar é também inventar relações; escrever é, muitas vezes, descobrir depois o que a imagem já começou a dizer.
Material de apoio elaborado a partir da leitura coletiva de Memórias inventadas: a segunda infância, de Manoel de Barros.
Dolores Flor
Mestra em Letras, especialista em Neurociências e Análise do Comportamento Humano, escritora, poetisa, editora, pesquisadora, curadora e formadora literária.
Dolores Flor – Mais que escrever, formar permanência.
Fonte: Agência Literária