Quando tocamos alguém de Drª. Marlete Dacroce
Dolores FlorPublicado em 27 de Fevereiro de 2026 ás 21h 58min
Quando tocamos alguém,
Não é só a pele que encontra a pele,
Deixamos algo invisível, um traço, um cuidado,
Um pedaço do que somos e levamos também.
Tudo o que o outro nem sabia oferecer,
Há uma energia boa nesse gesto,
Um prazer calmo que nos eleva,
Não pelo excesso, mas pela verdade.
Algo em nós se transforma sem alarde,
Quando tocamos alguém, tornamo-nos cúmplices:
Dos sonhos não ditos, dos desejos guardados,
Das fragilidades confiadas no silêncio.
E se tocamos, é porque existe encontro,
Cumplicidade que reconhece,
Desejo que respeita,
Amor que não precisa se anunciar para ser real.
Classificação técnica:
- Gênero: Lírico
- Subgênero: Lírica amorosa contemplativa
- Forma: Verso livre
- Eixo temático: Intimidade simbólica e cumplicidade emocional
O Toque como Experiência Simbólica
O poema “Quando Tocamos Alguém” insere-se no gênero lírico e organiza-se em verso livre, configurando uma lírica amorosa de natureza contemplativa. Seu eixo temático desloca o toque do plano físico para o campo relacional e simbólico, construindo uma reflexão sobre intimidade, cumplicidade e transformação silenciosa.
Desde o primeiro verso, “Quando tocamos alguém”, o texto abandona a perspectiva individualizada e assume uma voz coletiva. Esse movimento amplia o alcance do poema, afastando-o da experiência biográfica restrita e aproximando-o da condição humana. O gesto do toque deixa de ser circunstancial e passa a representar um fenômeno existencial.
A imagem inicial é reveladora:
“Não é só a pele que encontra a pele,
Deixamos algo invisível…”
Aqui, o poema opera por transcendência simbólica. O toque não se encerra no contato físico; ele se converte em rastro, traço, cuidado. A corporeidade é preservada, mas imediatamente ampliada para uma dimensão invisível. Trata-se de um procedimento característico da linguagem poética madura: transformar o concreto em campo de significação ampliada.
O vocabulário escolhido reforça essa direção. Termos como “energia”, “prazer calmo”, “verdade”, “cúmplices”, “sonhos não ditos” e “fragilidades confiadas” constroem uma atmosfera de intimidade contida. Não há exposição sensorial excessiva, nem detalhamento corporal. O poema trabalha com sugestão e interioridade.
A progressão temática também merece destaque.
O texto se organiza em quatro movimentos claros:
- O toque como marca invisível.
- O toque como troca transformadora.
- O toque como cumplicidade silenciosa.
- O toque como reconhecimento amoroso que dispensa anúncio.
Essa estrutura revela unidade e coerência interna. Não há dispersão imagética nem ruptura de campo semântico. O poema mantém consistência do início ao fim.
Um dos versos centrais sintetiza sua concepção de amor:
“Amor que não precisa se anunciar para ser real.”
Aqui se delineia uma compreensão afetiva fundada na maturidade emocional. O amor não é performático, não depende de exibição. Ele existe na reciprocidade silenciosa, na confiança implícita, no gesto que transforma sem alarde.
Do ponto de vista estético, o poema trabalha predominantemente com paralelismos sintáticos e ritmo construído pela repetição estrutural. A ausência de rimas regulares não compromete a musicalidade; ao contrário, reforça a naturalidade reflexiva do texto.
A força do poema reside justamente na sua contenção. Ele não busca impacto por intensidade declarativa, mas por densidade simbólica. A intimidade é tratada como responsabilidade compartilhada, não como espetáculo.
“Quando Tocamos Alguém” demonstra uma escrita que compreende que o amor não precisa ser anunciado para existir. Ele se manifesta no encontro, no reconhecimento e na transformação silenciosa que o gesto provoca.
No campo da poesia amorosa contemporânea, trata-se de um texto que privilegia a delicadeza como forma de intensidade.
Fonte: Antologia Entre o toque e o silêncio