Pablo Neruda e a poesia amorosa

Dolores Flor
Publicado em 31 de Janeiro de 2026 ás 21h 43min

Leituras que atravessam Entre o toque e o silêncio

A poesia amorosa ocupa um lugar singular dentro da tradição lírica. Não se trata apenas de escrever sobre o amor, mas de pensar o amor como linguagem, como experiência sensível que envolve corpo, ausência, memória, desejo e silêncio. Poucos poetas compreenderam esse território com tanta profundidade quanto Pablo Neruda.

Para a antologia de fevereiro, Entre o toque e o silêncio, duas obras dialogam diretamente com a proposta do mês: Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada e Cem Sonetos de Amor. Embora distintas em forma e momento de vida do poeta, ambas revelam faces complementares da poesia amorosa.

 

Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada

O amor como intensidade, ausência e vertigem

Publicado quando Neruda ainda era jovem, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada é um livro marcado pela urgência do sentir. Aqui, o amor aparece como experiência avassaladora, muitas vezes contraditória, atravessada pela perda, pelo desejo físico, pela distância e pela solidão.

Os poemas oscilam entre o toque direto e a dor da ausência. O corpo amado é presença viva, mas também memória. A palavra tenta alcançar o outro, mesmo quando já não o alcança mais. Esse movimento constante entre aproximação e afastamento faz da obra um exemplo emblemático da poesia amorosa enquanto subgênero lírico que não idealiza o amor, mas o expõe em sua fragilidade e excesso.

Essa obra dialoga profundamente com Entre o toque e o silêncio porque revela o amor quando ele ainda não aprendeu a se conter. É o amor que fala alto, que sofre, que deseja, que se desespera, e que, mesmo assim, encontra beleza na palavra. É o silêncio que dói depois do toque.

 

 

Cem Sonetos de Amor

O amor como permanência, maturidade e cuidado

Escrito muitos anos depois e dedicado a Matilde Urrutia, Cem Sonetos de Amor apresenta uma outra face da poesia amorosa: o amor amadurecido. Aqui, o sentimento já não precisa provar sua intensidade por meio do excesso. Ele se sustenta na constância, na observação do cotidiano, no corpo compartilhado com o tempo.

A forma fixa do soneto não engessa o sentir; ao contrário, oferece contenção. O amor se diz com mais silêncio, com mais escuta, com mais consciência do outro. O corpo continua presente, mas agora integrado à vida, à terra, ao trabalho, à passagem dos dias.

Essa obra ilumina o eixo mais silencioso da antologia Entre o toque e o silêncio. É o amor que permanece mesmo quando não grita, que encontra linguagem na simplicidade, que entende que amar também é respeitar limites e aceitar o tempo.

 

A poesia amorosa como subgênero lírico

E sua relação com a antologia do mês

A poesia amorosa, enquanto subgênero da lírica, não se define apenas pelo tema do amor, mas pela forma como o sentimento é elaborado poeticamente. Ela pode ser ardente ou contida, corporal ou espiritual, marcada pela ausência ou pela presença. O que a caracteriza é a centralidade da experiência afetiva e sua tradução sensível em linguagem.

Entre o toque e o silêncio nasce exatamente desse entendimento. A antologia não busca um único tom de amor, mas acolhe suas múltiplas manifestações: o amor que ainda arde, o amor que espera, o amor que lembra, o amor que silencia para não ferir.

Ao colocar Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada e Cem Sonetos de Amor como obras de referência, propomos um percurso: do amor intenso ao amor maduro; do toque urgente ao silêncio consciente. Dois livros, duas etapas, um mesmo eixo poético.

Assim, fevereiro se constrói como um mês de escuta profunda, em que cada poema escrito dialoga não apenas com Neruda, mas com a própria experiência de amar em suas formas possíveis.

 

Convite ao leitor

Se esta leitura despertou alguma memória, imagem ou reflexão, deixe um comentário. A poesia amorosa se completa quando a palavra encontra outro olhar disposto a escutá-la.

 

 

Comentários

Tenho plena convicção de que Neruda inflamará corações durante este mês! Paixões secretas aflorarão através das letras, dos versos, dos poemas! Aguardemos, pois, ansiosamente, os brilhantes textos líricos, apaixonantes dos escritores da Família Literária!!!!

Lorde Égamo | 31/01/2026 ás 22:34 Responder Comentários

Quando fala de amor é uma sensação tão prazerosa que não há corações que resistentem

Maria Lurdes | 31/01/2026 ás 23:52 Responder Comentários

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