O DIA EM QUE EXPLODIU MABATA-BATA
Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 16h 08min
O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. O pequeno pastor engoliu aquele todo vermelho, era o grito do fogo estourando. Nas migalhas da noite viu descer o ndlati, a ave do relâmpago. Quis gritar: – Vens pousar quem, ndlati? Mas nada não falou. Não era o rio que afundava suas palavras: era um fruto vazando de ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos. – Vens pousar a avó, coitada, tão boa? Ou preferes no tio, afinal das contas, arrependido e prometente como o pai verdadeiro que morreu-me? E antes que a ave do fogo se decidisse Azarias correu e abraçou-a na viagem de sua chama.
Fonte: COUTO, Mia. Vozes anoitecidas. Lisboa: Editorial C