Lição de ser


Publicado em 28 de Abril de 2026 ás 17h 28min

O velho Beá existiu. Se era uma criatura de traquéia e rins, como você e eu, disso não posso nem me atrevo a dar garantia. A mim ele sempre pareceu um vulto forrado de névoa, frágil e imprevisível como o bafo de vapor que a boca exala nas manhãs de frio.

 

Me espantava a ciência que ele dominava das coisas que nunca havia tocado. Por exemplo: ele não vira o mar. O mar para o velho Beá estava além da fonte, das montanhas e dos lagos. Havia entre os dois uma distância tão imprecisa e extensa, que mesmo levado nas costas de uma codorna de fogo, como aquelas que queimam o campo, espantava o velho Beá saber que o mar era feito de movimentos e do bailado dos pingos de chuva.

 

Beá vivia numa tapera.

 

Não era mágico, nem mago, nem brux?.

 

Natural como um cigarro de palha enrolado nos dedos, o encantamento do velho Beá era possuir o dom de falar às crianças com palavras de açúcar derretido.

 

Uma vez ele disse:

 

- Existe uma diferença da Terra à Lua entre a valentia e a coragem.

 

O velho então contou uma estória, a estória da baleia - e macacos me mordam se o velho Beá alguma vez tinha pressentido o espaço e o tempo das baleias. Pois se nem o mar marginal ele conhecia! Não obstante, ele discorreu com segurança sobre a baleia - esse mamífero disfarçado de peixe que mergulha nas águas em busca da grande lei da física para sobreviver. Como a água lhe serve apenas para defender-se, a baleia emerge para respirar.

 

Quando encontra o arpão, seu destino está selado.

 

O velho Beá disse que a baleia não é valente. A baleia tem um poder maior: o poder da coragem. Se ela fosse um bicho apenas valente, usaria seu tamanho e seu peso para dominar a Terra, porque o valente mede suas ações pela submissão que pensa ter à mercê. Valente é o tubarão, que dilacera sabendo que seus dentes são agudos e não poupam a vítima. Já a baleia dilui seu tamanho e sua força nas ondas do mar - (incrível como o velho Beá sabia que o mar tem ondas) - e se torna pequena nos oceanos, e se faz igual, e seu esguicho é como o chafariz da praça da matriz. Ao redor da baleia todos os peixes se divertem.

 

A baleia é corajosa.

 

A coragem pressupõe a igualdade de forças, o equilíbrio das armas, o risco de perder a luta. - Há muitos homens valentes que não são corajosos - disse o velho Beá. - Eles lutam apenas quando a maré está pra peixe.

 

Dei risada.

 

O jeito do velho Beá cuspir de lado fazia qualquer um rir. E o velho acabava de dar uma cuspida de lado.

 

Acho que foi ainda Beá quem explicou que se a baleia resolvesse um dia morar na terra, no chão, nas pedras, nos morros, como fazem as onças e os lobos que amamentam os cachorrinhos, ela acabaria esmagada pelo seu próprio peso e não conseguiria mover-se entre os perigos da cidade e dos povoados. Seria necessário modificar o traçado das ruas e dos parques, arrancar as árvores, desmontar os postes de luz e do telégrafo, arrasar as cercas dos sítios, para dar um cantinho às baleias - que então se tornariam incômodas, inquietas, desagradáveis e aborreceriam os homens. Pode ser que elas se tornassem então apenas valentes e rudes.

 

Mas elas preferem amar a vida e se retiram para mar, equilibrando o giro do mundo.

 

- Entendeu qual a diferença entre valentia e coragem? Batia uma sombra nas rugas do rosto do velho Beá. Seus pés estavam apoiados nos seixos do chão. A estória voltava para seu bolso, como o pedaço de fumo em corda; no dia seguinte, seria picada com o canivete.

 

Até hoje não entendo bem como era possível guardar dentro daquela cabeça e daquela tapera, na virada da estrada, figuras tão grandes como oceanos e baleias. Creio que o velho Beá era um homem que sabia demais. Diziam até que o arco-íris acabava no telhado de seu barraco. De fato, a gente olhando a chuva do lado de lá do rio, dava mesmo essa impressão. Mas as pessoas sensatas, e mesmo as pessoas valentes, corriam a explicar que o velho Beá estava caduco e o arco-íris era ilusão de óptica.

 

Aliás, só aprendi que se escreve assim - óptica - muito tempo depois, quando o velho Beá já se havia des- pedido do lugar e entrado num grão de mostarda.

 

 

DIAFÉRIA, Lourenço. “Lição de ser”. In: Crônicas 6. 18. ed. São Paulo: Ática, 2005. p. 84-85. Coleção Para Gostar de Ler, 7.
 

Fonte: DIAFÉRIA, Lourenço. “Lição de ser”. In: Crônicas 6

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