Duas cenas mineiras


Publicado em 20 de Abril de 2026 ás 15h 27min

Não é mais de tarde, nem baixou ainda a noite. Não faz mais calor, nem chegou ainda ? frio. Não barulhenta nem silenciosa, a rua torta se endireita, sobe, desce, mais plana segue fechando o dia. Ainda sem acender as luzes.

 

No batente de uma porta, o gato bebe café-com-leite de uma tijela. Um gato pardo, médio, não se pode afirmar que seja bonito. Nem feio. Pausa e sossegadamente, como escreveu o poeta do lugar num soneto, o bichano toma o leite e deixa o café. Com toda sutileza.

 

O homem que volta para casa não entra logo, fica na calçada olhando o muro pintado de novo. A casa é antiga, o muro é azulão. O homem, o chefe político da cidade, modestamente importante, quem não conhece não dá nada por ele. Plantado ali vendo a obra.

 

Vem o outro homem pela rua, aproxima-se, cumprimenta e pára, fica também admirando o muro. Alegre, mas seguro, o dono se expande:

 

—Mandei pintar.

 

E como o amigo não diz nada, pergunta:

 

—O que é que acha?

 

O compadre observa, concentrado e calado, aquele despropósito de azul. O prefeito, ex-presidente da câmara, poderoso cacique, um tanto desgovernado pela dúvida alheia, insiste:

 

—Que acha da cor?

 

Então isso é cor? Olha, olha, e balança a cabeça, nem sim nem não, muita antes pelo contrário, examinando. Tenho tempo, assunto sério.

 

Impaciente o proprietário:

 

—Você não sabe que cor é essa?

 

E ele de juiz, entendido não, até melhor tecnocrata. Azul modernoso, azulão-butique. Que diabo vai dizer?

 

—Qual é essa cor?

 

Nada. Aquela indecisão. Podia ter feito diverso caminho.

 

—Diga a cor. Me diga.

 

Demorou o mais que pôde. Azul danado de ruim, uma infelicidade em vinte metros. Enfim corajoso, afinal era amigo e compadre, resolveu-se:

 

—Verde não é.

 

Semana Santa. Cidade barroca, de ruas veneráveis. Casario, calçamento, cena colonial. As ladeiras se estreitam em becos, entretanto levam sempre aos adros e às praças, de repente iluminadas. Alegria do belo que fica, euforia de permanência quando se vê as marcas do tempo.

 

Existe uma leveza, ou limpeza, neste ar mineiro. As cores se avivam e, apesar de nítidas, são calmas. Os sons dos sinos também, claramente. E a sensação da altura que purifica vem com os longes limites de montanhas, um cerco suave, que nos isola em transparente redoma. À noite, o mistério se adensa mas não pesa. As sombras têm perfume, as simetrias apenas se esbatem, as pessoas continuam próximas. Erguidas contra o céu de estrelas, as vozes parecem mais soltas e musicais. Como se tentando um imemorial diálogo.

 

Sexta-Feira da Paixão, com a noturna procissão do encontro, esse clima se modifica. O povo enche as ruas, feito massa transbordante, se acotovela no movimento, no borborinho, demasiado para tão pequeno trajeto. Ficam o cenário e a imponência. O cortejo é solene, reproduz a "via crucis". Dignitários da cidade, trajados a rigor, lembram uma comissão de frente. Depois vêm os soldados romanos e, entre eles, de vestes longas, os que devem ser Arimatéia e Nicodemus. Os sacerdotes paramentados, as imagens antigas. Nas estações, que são nichos de oratórios, a banda de música cessa e canta uma lírica Verônica. O mar de gente em silêncio para ouvi-la.

 

Lentamente, pisando as pedras do chão molhado pela chuva fina, a procissão chega à matriz e se prolonga no ofício de trevas. Coral e órgão, incenso e luzes. Afluxo e refluxo, piedosos, buscam beijar o Senhor Morto. Faz um calor opressivo, que cheira a flor e vela.

 

No oitão da igreja, a fresca está povoada e parece um intervalo teatral. Com os romanos de capacete - brilhante, os judeus convertidos que mais parecem árabes, os senhores de "smoking". Todos visivelmente cansados. Ao acender um cigarro, o homem se chega e me diz:

 

—Esse prefeito não presta.

 

Não entendo, em volta ninguém entende. Apesar da mineira vocação política, a frase não se enquadrava, não tinha 1ugar.

 

—Desde que ele assumiu, é essa tristeza.

 

O homem está bêbado. Aponta os romanos, os árabes, os senhores fantasiados, baixa os braços como em fim de festa, e conclui:

 

—Nunca vi Carnaval mais desanimado.

Fonte: RAMOS, Ricardo. Duas cenas mineiras. Folha da Tard

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