Domingo na praça
Publicado em 20 de Abril de 2026 ás 15h 10min
Domingo de manhã, eu me sentei na praça da cidade. Era uma cidade estranha, vista em visita, e sua praça pulsava colorida, ensolarada, neste meio de primavera. Do meu banco, sob uma árvore velha que espalhava ao redor florzinhas roxas, percorri as construções alinhadas pelos quatro lados tão inesperadamente planos e regulares. Havia um prédio centenário com jeito de prefeitura, um outro moderno talvez assembléia, um antigo teatro pintado de novo, uma vaga visão clássica de fórum, uma igreja levantada em obras épocas superpostas. Por duas das faces, entre as edificações avantajadas, resistiam casas de cinqüenta anos atrás, pedaços de jardins, barracões de madeira. E tudo se embaçava um pouco no acalorado mormaço.
Sobre os ruídos em volta, difusa mistura de crianças jogando bola, vendedores ambulantes e carros passando mais longe, os alto-falantes da igreja cantavam a missa das dez. Não me lembro de ter ouvido sinos a anunciá-la, quando passei pelo centro e afinal caminhei para a sombra dos canteiros. Santo é o Senhor. As vozes em dueto, com o acompanhamento de órgão, dominavam a praça. No entanto sem estridências, ao contrário muito calmas. Elas se arredondavam como fundo musical, vagaroso, desenovelando uma certa paz.
Pela calçada vem um grupo de três mulheres. Aproximam-se bem juntas, e apesar do conjunto recortado são esmaecidas. Uma, de elevadíssima idade, está numa cadeira de rodas. Outra, menos idosa, a empurra, andando levemente. A terceira é grisalha e segue pausada, também silenciosa.
Em seqüência passa a mãe com o filho. Ela usa short e blusa sumária, mostra-se bonita. Ele um garoto de tanga e passo incerto, aos tropeços de brinquedo na mão. Os dois chegam e saem absortos, ligados entre si, dizendo palavras avulsas de uma só linguagem. Alheios ao resto.
Aí surge o casal em plenitude. O homem é moreno, tem costeletas, uma camisa de ramagens e sandálias. A mulher é loura, volumosa, decerto porque extremamente grávida. E estão imersos, continuam, os dois acordes no passo e no mundo. Ainda que não percebam, desfilam. Lindamente.
Um menino irrompe correndo para mim, desabalado, estaca suando e pergunta que horas são. Respondo, ainda tenho tempo. Claro que faço hora. E me levanto, acendo um cigarro com vagar. Só por que tenho tempo? Vou até o centro da praça, olho o monumento ao general, uma alegoria com cães de guarda, uma república tocando violão na bandeira, encimado por tosca reprodução da estátua da liberdade. São fascinantes as nossas adaptações. Logo adiante, modestamente, a erma de um advogado nos lembra: sem eles não há justiça. Estou de acordo. E volto para o meu banco, agora já é meu, desistido da nossa escultura oficial.
Cheguei e vi. Como quem não quer nada, sentado na manhã dominical, eu vi o rapaz em frente. Escorado na motocicleta, de calças jeans, nu da cintura para cima. E vi a moça aparecer, vestida de verde. E os dois se encontrarem. E sem o menor prefácio se beijarem. E se abraçarem, se apalparem, fazerem quase tudo a que tinham direto. Ali no maior sol, diante de todo mundo. Confesso que ainda estranho. Mas gosto, gostar é pouco, adoro. Como não admirar o idílio atualizado, o amor ao câmbio de hoje?
Aquilo me iluminou. De repente eu não soube mais do que era velho, encontrei o novo. O movimento das pessoas avivando a manhã, das árvores soltas na brisa, dos gritos infantis saudando o carrinho de sorvete. Então percebi os cartazes próximos: diretas-já, ecologia, desarmamento. As camisetas das moças, de vistosos desenhos com palavras. As barbas dos rapazes, seus gestos falando a caminho. As bicicletas borboleteando, as capas dos livros que as jovens mães traziam, as flores na força da estação. Animada, a praça ganhou as cores do presente.
Do outro lado da rua, a faixa convidava para o debate sobre um filme que estavam exibindo. Filme brasileiro, memórias da nossa ditadura anterior, baseado em livro de quem a sofreu. Coisas didáticas. Eu olhei a praça mais uma vez, me despedindo, e fui para lá. Naturalmente renovado.
Fonte: RAMOS, Ricardo. Domingo na praça. Folha da Tarde,