Amor próprio de Keila Rackel Tavares

Dolores Flor
Publicado em 27 de Fevereiro de 2026 ás 21h 34min

Amor próprio.

"Que combinação és de musa e obra. Você é um tesouro escondido em um campo de flores silvestres, um diamante bruto que brilha com luz própria. É um rio que flui com a força da paixão, um sol que ilumina os dias mais sombrios. Você é digno de amor porque é único, porque é você, e isso é o suficiente. Não continue onde não enxergam a sua essência, o seu valor, porque quem nasceu para ser estrela jamais perde o esplendor, mesmo que ao redor as pessoas não enxerguem o seu triunfo. Você é uma obra-prima, um original, e isso é o que te faz incrível e, para alguns, inacessível."

 

Prosa Poética ou Poesia?

 

No campo da escrita contemporânea, é comum encontrarmos textos que utilizam linguagem metafórica intensa, mas que não se organizam formalmente como poema. Isso nos convida a uma pergunta importante para escritores e leitores: o que diferencia um poema de uma prosa poética?

 

O texto iniciado por “Que combinação és de musa e obra” oferece um excelente ponto de partida para essa reflexão.

 

1. Classificação literária

Do ponto de vista técnico, o texto pertence ao gênero lírico, pois expressa valorização subjetiva, emoção e exaltação do outro. Contudo, formalmente, ele não se configura como poema em versos, mas como prosa poética de caráter motivacional.

 

Classificação sugerida:

  • Gênero: Lírico
  • Forma: Prosa poética
  • Modalidade discursiva: Texto lírico afirmativo motivacional
  • Função predominante: Exaltação e fortalecimento identitário

 

A ausência de versificação, de ritmo estruturado por cortes e pausas estratégicas, e a presença de progressão argumentativa contínua aproximam o texto da prosa.

 

2. Estrutura imagética

O texto constrói sua força por meio de metáforas acumulativas:

  • “tesouro escondido”
  • “diamante bruto”
  • “rio que flui”
  • “sol que ilumina”
  • “estrela”
  • “obra-prima”

 

Há um campo semântico consistente de luminosidade, raridade e valor. Isso revela domínio do recurso metafórico e unidade temática.

Contudo, é importante observar que essas imagens funcionam como reforço afirmativo. Elas não criam tensão, ambiguidade ou lacuna interpretativa; elas confirmam uma ideia central já declarada: o valor do interlocutor.

 

3. Afirmação versus sugestão

Na teoria literária contemporânea, especialmente a partir da estética da recepção (Wolfgang Iser), compreende-se que o texto literário se realiza nas lacunas, nos espaços que o leitor precisa preencher.

 

Neste texto, encontramos afirmações diretas como:

 

“Você é digno de amor porque é único.”

A frase é clara, forte e motivadora. Contudo, ela reduz o espaço interpretativo, pois entrega a mensagem completa.

Em termos estéticos, poderíamos dizer que o texto opera predominantemente no campo da declaração, e não da sugestão.

Isso não diminui seu valor comunicativo, mas define sua natureza.

 

4. Discurso laudatório e função retórica

O texto também se aproxima da tradição retórica do discurso epidíctico, cujo objetivo é louvar, exaltar, celebrar qualidades.

 

Quando lemos:

 

“Não continue onde não enxergam a sua essência.”

entramos no campo da orientação direta.

 

Aqui o texto assume função quase pedagógica ou aconselhadora.

 

Essa característica o distancia da poesia contemplativa e o aproxima da escrita formativa, muito presente na literatura motivacional contemporânea.

 

5. Potencial estético

O texto possui:

- Unidade metafórica

- Coerência temática

- Linguagem clara

- Intensidade emocional

 

Mas poderia alcançar maior densidade literária se:

  • substituísse afirmações diretas por imagens sugeridas
  • reduzisse aconselhamentos explícitos
  • introduzisse pausas estratégicas
  • criasse pequenas lacunas interpretativas
  •  

A maturidade estética muitas vezes está na confiança de que a imagem pode comunicar mais do que a explicação.

 

 

6. Prosa poética: um território legítimo

É importante afirmar: prosa poética não é “menos literatura”. Trata-se de uma forma híbrida, em que a linguagem simbólica se organiza em estrutura de prosa.

A diferença não está na beleza, mas na técnica formal.

 

Enquanto o poema trabalha com:

  • ritmo visual
  • cortes intencionais
  • economia expressiva
  • suspensão

 

a prosa poética trabalha com:

  • fluxo contínuo
  • progressão reflexiva
  • encadeamento lógico

 

Ambas são legítimas. A escolha depende da intenção estética do autor.

 

 

 

 

Fonte: Antologia Entre o toque e o silêncio

Comentários

Agradeço a análise!

Keila Rackel Tavares | 27/02/2026 ás 21:48 Responder Comentários

Parabéns por tão belo texto! Você recebeu uma análise com bastante conteúdo! Parabéns!

Lorde Égamo | 27/02/2026 ás 22:05 Responder Comentários

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