POESIA AMOROSA CONTEMPORÂNEA: Permanência, alteridade e elaboração ética do afeto na lírica atual

Dolores Flor
Publicado em 16 de Fevereiro de 2026 ás 13h 15min

A poesia amorosa, enquanto forma privilegiada de expressão da subjetividade, atravessa a história literária como campo de tensão entre idealização, desejo, memória e ética. Contudo, na contemporaneidade, observa-se um deslocamento significativo em sua estrutura simbólica: o amor deixa de ser tematizado exclusivamente como explosão passional ou promessa de eternidade e passa a ser compreendido como processo de elaboração interior, consciência da alteridade e construção narrativa da experiência. A lírica amorosa atual não apenas descreve o sentimento, mas o interroga, o amadurece e o reinscreve em um horizonte crítico marcado pela instabilidade dos vínculos e pela fragmentação do sujeito.

 

Em um contexto que Zygmunt Bauman (2004) denomina de “modernidade líquida”, no qual as relações tendem à fluidez e à descartabilidade, escrever o amor torna-se gesto de resistência simbólica. Se os laços se tornam frágeis, a palavra poética procura densificá-los. A poesia amorosa contemporânea não ignora a precariedade das relações; pelo contrário, ela a assume como dado constitutivo do tempo histórico. Contudo, em vez de sucumbir à volatilidade, ela investe na permanência interior. O amor, nesse cenário, não é garantido pela estabilidade externa, mas pela fidelidade subjetiva ao vivido. Assim, a poesia torna-se espaço de preservação daquilo que o mundo tende a dissolver.

 

Essa permanência não deve ser confundida com apego ou idealização romântica. Ela se aproxima, antes, da concepção ricoeuriana de identidade narrativa. Paul Ricoeur (1994) afirma que o sujeito constrói a si mesmo ao organizar sua experiência em enredo, integrando eventos dispersos em uma coerência interpretativa. A poesia amorosa contemporânea participa dessa organização. Ao escrever o amor, mesmo quando atravessado por ausência ou impossibilidade, o eu lírico não cristaliza o passado, mas o reinscreve como parte constitutiva de sua identidade. O amor torna-se memória habitável, território simbólico que sustenta o sujeito diante da fragmentação.

 

Outro eixo fundamental dessa lírica reside na dimensão ética da alteridade. Emmanuel Levinas (1980) problematiza a tradição filosófica ocidental por reduzir o outro ao mesmo, isto é, por tentar assimilá-lo à lógica da identidade. Na poesia amorosa contemporânea, observa-se movimento inverso: amar não é absorver, mas reconhecer a irredutibilidade do outro. O sentimento deixa de ser apropriação e passa a ser responsabilidade. A presença do outro não se converte em objeto de domínio, mas em acontecimento que interpela o eu. Essa perspectiva altera profundamente a configuração do amor na literatura: o vínculo não é mais sustentado pela fusão absoluta, mas pelo respeito à distância que funda a relação.

 

Nesse sentido, o silêncio adquire centralidade estética. Octavio Paz (1982) sustenta que o poema nasce do intervalo, da tensão entre palavra e silêncio. A lírica amorosa contemporânea radicaliza essa concepção ao reconhecer que o afeto nem sempre se expressa na declaração explícita, mas na pausa significativa. O silêncio não é vazio, mas densidade. Ele é espaço de escuta, maturidade e elaboração. A palavra poética, ao incorporar o silêncio como linguagem, abandona o excesso retórico e assume uma estética da contenção. O amor é dito sem alarde, mas com profundidade.

 

Também o corpo sofre reconfiguração simbólica. Se, em determinadas tradições, o erotismo esteve associado à ruptura e ao excesso, como problematiza Georges Bataille (1987), na poesia contemporânea ele aparece frequentemente sob o signo da delicadeza e do reconhecimento mútuo. O toque não é invasão, mas aproximação consciente. O desejo não é violência simbólica, mas tensão criativa que preserva a integridade do outro. Essa mudança revela não apenas transformação estética, mas também ética: o corpo é compreendido como espaço de encontro e não como território de conquista.

 

Além disso, a poesia amorosa contemporânea incorpora de maneira mais explícita a dimensão do amor-próprio como fundamento do vínculo. A tradição filosófica moderna, especialmente nas discussões sobre subjetividade e autonomia, evidencia que não há relação saudável sem identidade preservada. Martin Buber (2001), ao diferenciar as relações “Eu-Tu” das relações “Eu-Isso”, demonstra que o encontro autêntico exige reconhecimento recíproco, não instrumentalização. A lírica atual dialoga com essa concepção ao afirmar que amar não implica dissolução de si, mas fortalecimento da própria inteireza. O amor deixa de ser anulação e torna-se escolha consciente.

 

Assim, a poesia amorosa contemporânea se configura como campo de elaboração estética e ética do afeto. Ela articula permanência e fluidez, desejo e respeito, silêncio e palavra, memória e identidade. Não abandona a intensidade, mas a atravessa com maturidade reflexiva. Não ignora a dor, mas a transforma em experiência formativa. Em vez de prometer completude absoluta, reconhece a incompletude como condição humana.

 

Diante disso, escrever poesia amorosa hoje exige do autor mais do que sensibilidade emocional; exige consciência histórica, densidade simbólica e responsabilidade ética. O amor, enquanto tema literário, não pode mais ser reduzido a clichês passionais ou sentimentalismos simplificadores. Ele demanda elaboração crítica, diálogo com a tradição e escuta das tensões contemporâneas.

 

Se o mundo insiste na velocidade, a poesia oferece permanência.

Se as relações se tornam líquidas, o poema constrói densidade.

Se o ruído domina, o amor aprende a falar baixo.

 

E então surge a pergunta inevitável ao escritor:

quando você escreve sobre o amor, está apenas narrando um sentimento, ou está assumindo a responsabilidade de dar forma estética e ética àquilo que sustenta a condição humana?

Porque, no fim, não é o amor que precisa da poesia. É a poesia que revela o que você realmente compreendeu sobre amar.

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

 

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução Cláudia Fares. Porto Alegre: L&PM, 1987.

 

BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo: Centauro, 2001.

 

LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Tradução José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1980.

 

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

 

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tradução Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1994. 3 v.

 

Comentários

E’ muito importante este estudo. Nos ajuda a compreender muitas coisas que não conseguimos compreender! Estudo que enriquece a nossa visão como poetas!

Lorde Égamo | 16/02/2026 ás 17:14 Responder Comentários

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