Mário de Andrade: o escritor que fez da literatura uma forma de compreender o Brasil
Publicado em 31 de Julho de 2026 ás 15h 11min
Poeta, romancista, pesquisador, professor e autor de uma extensa correspondência, Mário de Andrade transformou a palavra em espaço de criação, diálogo e investigação da identidade brasileira
Poucos escritores brasileiros reuniram tantas formas de atuação intelectual quanto Mário de Andrade. Poeta, romancista, contista, cronista, crítico, professor, musicólogo, pesquisador do folclore, fotógrafo e gestor cultural, ele dedicou sua trajetória à tentativa de compreender o Brasil em sua diversidade linguística, artística e humana. Sua obra não se limitou à publicação de livros: estendeu-se às viagens de pesquisa, ao estudo da música popular, à preservação do patrimônio, à formação de novos escritores e a uma intensa correspondência com alguns dos principais nomes da cultura brasileira.
Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em 9 de outubro de 1893, e morreu na mesma cidade, em 25 de fevereiro de 1945. Desde muito jovem, manteve uma relação profunda com a música e com a literatura. Estudou piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, instituição em que mais tarde passou a lecionar. Sua formação musical exerceu forte influência sobre sua escrita, perceptível no ritmo, na sonoridade, nas rupturas e nas experiências de linguagem presentes em seus poemas e narrativas.
Seu primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, foi publicado em 1917. Entretanto, foi com Pauliceia desvairada, lançado em 1922, que Mário de Andrade apresentou de maneira mais contundente sua proposta de renovação poética. O livro rompeu com modelos tradicionais, incorporou a agitação da cidade de São Paulo e se tornou um dos marcos do Modernismo brasileiro. A obra foi publicada no mesmo ano da Semana de Arte Moderna, evento realizado no Theatro Municipal de São Paulo e do qual o escritor participou ativamente.
Um dos protagonistas do Modernismo
A Semana de Arte Moderna, realizada entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, reuniu escritores, músicos e artistas interessados em questionar os padrões acadêmicos e procurar novas formas de expressão. Mário de Andrade esteve entre as figuras centrais do movimento, ao lado de nomes como Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti del Picchia. Mais do que negar o passado, os modernistas desejavam criar uma arte capaz de dialogar com as transformações sociais, culturais e urbanas do país.
Para Mário, contudo, renovar a literatura brasileira não significava apenas abandonar formas antigas. Era necessário conhecer profundamente o país, suas falas, seus ritmos, suas tradições, seus conflitos e suas diferenças regionais. Essa preocupação atravessou toda a sua produção. Ele pesquisou manifestações populares, recolheu cantos, estudou danças, registrou costumes e realizou viagens pelo Norte e pelo Nordeste, procurando aproximar a criação artística das muitas culturas existentes no território brasileiro.
Essa procura por uma linguagem literária brasileira encontrou uma de suas expressões mais conhecidas em Macunaíma, publicado em 1928. Na obra, Mário de Andrade reuniu elementos de mitos indígenas, narrativas populares, oralidade, humor, fantasia e crítica social. O personagem central, apresentado como um “herói sem nenhum caráter”, não deve ser entendido apenas como alguém destituído de princípios, mas como uma figura móvel, contraditória e difícil de definir por uma identidade única. A narrativa interroga a formação do Brasil e coloca em cena as misturas, as tensões e as contradições que atravessam o país.
Uma obra marcada pela experimentação
A produção de Mário de Andrade percorreu diferentes gêneros. Na poesia, além de Pauliceia desvairada, destacam-se livros como Losango cáqui, Clã do jabuti e Remate de males. Em suas composições, o poeta experimentou novas construções rítmicas, incorporou expressões populares, aproximou a escrita da oralidade e procurou libertar o verso de estruturas excessivamente rígidas.
Na prosa, publicou obras como Amar, verbo intransitivo, romance que discute educação sentimental, relações familiares, desejo e convenções sociais, e Macunaíma, considerada uma de suas criações mais importantes. Também escreveu contos, crônicas, ensaios, estudos sobre música, crítica literária, textos sobre artes visuais e registros de viagem. Essa variedade revela um escritor que não aceitava permanecer preso a uma única forma de expressão.
Mário de Andrade acreditava que a literatura deveria estar ligada à experiência humana e ao tempo histórico. Sua experimentação não era apenas uma busca por novidade. Ela fazia parte de um projeto mais amplo de investigação cultural. Ao modificar a sintaxe, aproximar a escrita da fala e incorporar palavras de diferentes regiões, o autor questionava a ideia de que apenas uma linguagem formal e padronizada poderia representar literariamente o Brasil.
Sua obra, por isso, exige uma leitura atenta. O escritor combina erudição e cultura popular, tradição e ruptura, humor e reflexão, intimidade e preocupação coletiva. Seus textos revelam um intelectual que procurava compreender o país, mas que também reconhecia as dificuldades e contradições presentes nessa tarefa.
O escritor que fez da carta um espaço de formação
Além dos livros publicados, Mário de Andrade deixou uma das correspondências mais importantes da literatura brasileira. Ao longo de sua vida, escreveu e recebeu milhares de cartas, mantendo diálogo com poetas, romancistas, artistas, músicos, críticos, pesquisadores e jovens autores. Sua correspondência forma um amplo mapa da vida cultural brasileira entre as décadas de 1910 e 1940.
Entre seus interlocutores estavam Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Henriqueta Lisboa, Anita Malfatti e muitos outros nomes importantes. Em suas cartas, Mário comentava manuscritos, sugeria alterações, discutia projetos, compartilhava leituras, refletia sobre a situação política e cultural do país e procurava encorajar escritores que ainda estavam construindo suas trajetórias.
A carta, em suas mãos, deixava de ser apenas um meio de transmitir notícias. Transformava-se em espaço de pensamento, amizade, crítica, orientação e criação. O tom mudava conforme o destinatário: algumas cartas eram formais; outras, espontâneas, afetivas, bem-humoradas ou profundamente reflexivas. Essa variedade mostra que a escrita epistolar é construída a partir da relação entre quem escreve e aquele a quem as palavras são dirigidas.
Uma das correspondências mais conhecidas foi mantida com Carlos Drummond de Andrade. Os dois se conheceram em 1924, durante uma viagem do grupo modernista a Minas Gerais, mas a amizade se fortaleceu especialmente por meio das cartas. Drummond encontrou em Mário um interlocutor atento, capaz de ler seus textos, questionar suas posições e incentivá-lo a construir uma voz própria. O Instituto Moreira Salles define essa relação como uma amizade formada “numa base de literatura”.
Parte dessa correspondência está reunida no livro A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário. A primeira carta da coletânea é datada de 10 de novembro de 1924. Nela, Mário dialoga com o jovem Drummond sobre literatura, identidade, formação intelectual e a necessidade de observar o Brasil não de maneira idealizada, mas como realidade viva e contraditória.
Essas cartas permitem conhecer não apenas o autor consagrado, mas também o leitor generoso e o amigo exigente. Mário não oferecia fórmulas prontas. Ele provocava seus interlocutores, fazia perguntas, apontava fragilidades e estimulava cada escritor a compreender melhor suas próprias escolhas. Por isso, sua correspondência pode ser lida como uma verdadeira formação literária construída por meio do diálogo.
Literatura, cultura e atuação pública
O compromisso de Mário de Andrade com a cultura brasileira também se manifestou na vida pública. Entre 1935 e 1938, esteve à frente do Departamento de Cultura do município de São Paulo. Durante sua gestão, participou da criação e do desenvolvimento de projetos ligados às bibliotecas, à música, aos parques infantis, à pesquisa social e à preservação de manifestações culturais populares. Também apoiou a Missão de Pesquisas Folclóricas, que percorreu regiões do Norte e do Nordeste registrando músicas, danças, rituais e outras expressões da cultura brasileira.
Sua atuação ajudou a consolidar a compreensão de que a cultura deveria fazer parte das políticas públicas e estar acessível à população. O escritor também colaborou com iniciativas relacionadas à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional. Dessa maneira, sua contribuição ultrapassou os limites da literatura e alcançou a educação, a memória, a música, o patrimônio e a formação cultural.
Um escritor que permanece
Mário de Andrade morreu aos 51 anos, deixando uma produção extensa e múltipla. Sua obra continua sendo estudada porque apresenta perguntas que permanecem atuais: como representar um país marcado por tantas diferenças? Como aproximar tradição e inovação? De que maneira a linguagem pode acolher diferentes vozes? Qual é a responsabilidade do escritor diante de seu tempo?
Conhecer Mário de Andrade é entrar em contato com um autor que não separava a escrita da leitura, a criação da pesquisa, o livro da vida cultural. Sua literatura nasceu da inquietação e do desejo de compreender. Ele escreveu poemas, romances, contos e ensaios, mas também transformou cartas em espaços de escuta, aprendizagem e amizade.
No mês de agosto, a Família Literária terá Mário de Andrade como autor de referência para o estudo da carta literária. A leitura de sua correspondência permitirá observar como uma carta pode ultrapassar a comunicação cotidiana e se transformar em literatura. Em cada saudação, comentário, conselho ou despedida, há um escritor dirigindo-se a alguém, mas também construindo um pensamento capaz de alcançar leitores de outros tempos.
Essa proposta dialoga diretamente com o tema da antologia do mês:
A quem ainda escrevo?
Cartas literárias: palavras que procuram destino
Ao aproximar os escritores contemporâneos das cartas de Mário de Andrade, a formação de agosto deseja recuperar um gesto que a velocidade das comunicações muitas vezes nos fez esquecer: escrever demoradamente para alguém, escolhendo não apenas aquilo que será dito, mas também a forma, o ritmo e o silêncio com que cada palavra chegará ao seu destino.
Fontes consultadas
INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS. Mário de Andrade. Universidade de São Paulo.
INSTITUTO MOREIRA SALLES. Mário de Andrade: homem, simplesmente.
INSTITUTO MOREIRA SALLES. Os Andrades do Modernismo: correspondência de Mário e Oswald.
ITAÚ CULTURAL. Mário de Andrade. Enciclopédia Itaú Cultural.
ANDRADE, Mário de. A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.