As três forças invisíveis da poesia que permanece
Dolores FlorPublicado em 12 de Fevereiro de 2026 ás 08h 48min
“Toda poesia que permanece tem três forças invisíveis: imagem, emoção e sutileza.” Essa afirmação não é um enfeite teórico. Ela é um critério de maturidade literária. Ao longo da história, quando observamos os poemas que atravessaram gerações, percebemos que eles não ficaram por causa de palavras difíceis, nem por excesso de dramaticidade. Permaneceram porque conseguiram fazer o leitor ver, sentir e compreender além do que estava escrito.
A poesia que marca não é a que explica demais, mas a que constrói experiência.
1. IMAGEM – O que faz o leitor ver
Imagem é aquilo que faz o leitor enxergar. Se lemos um poema e não conseguimos visualizar nada, ele dificilmente cria memória. A imagem é a ponte entre o abstrato e o concreto. É ela que transforma um sentimento invisível em uma cena palpável. Em vez de afirmar “estou com saudade”, o poeta cria uma cadeira vazia na varanda ao entardecer. Em vez de dizer “sofri”, ele constrói uma janela aberta batendo ao vento numa casa silenciosa.
A imagem não é enfeite, nem adorno decorativo. Ela é estrutura emocional. Quando usamos imagem, tiramos o poema do campo da ideia e o colocamos no corpo do leitor. O leitor não pensa apenas sobre o sentimento, ele entra nele. É o que observamos na tradição lírica de autores como Cecília Meireles, cuja poesia muitas vezes transforma tempo, vento e mar em matéria sensível da experiência humana. Também em Pablo Neruda, que converte ausência em objetos concretos, como cartas, quartos, mesas, frutas, pedras.
A pergunta que todo poeta deve se fazer é simples e profunda: se alguém fechar os olhos ao ler meu poema, o que verá? Se a resposta for apenas “tristeza”, ainda estamos no abstrato. Mas se a resposta for “um quarto escuro com a luz do corredor entrando por baixo da porta”, então há imagem. E quando há imagem, há possibilidade de permanência.
Se o leitor consegue ver, ele começa a sentir.
2. EMOÇÃO – O que faz o leitor sentir
Emoção não é declaração. Escrever “estou triste” é informar. Poesia não vive de informação; vive de experiência. A emoção verdadeira acontece quando o leitor sente antes mesmo de compreender racionalmente o que está acontecendo no texto. Há uma diferença enorme entre emoção direta e emoção construída. A emoção direta entrega tudo pronto e termina rápido. A emoção construída permite que o leitor participe do processo.
Se alguém escreve “eu sofri muito”, o leitor entende a frase, mas não necessariamente se envolve. Porém, se o poema diz “a xícara ainda está no mesmo lugar onde você deixou”, há um silêncio que atravessa. O objeto parado carrega o tempo. A ausência se torna física. O leitor preenche a cena com sua própria memória. Isso é emoção construída.
Na teoria estética, Wolfgang Iser afirma que o texto literário é incompleto e exige a participação do leitor para se realizar. Essa lacuna não é falha, é força. O poema não precisa gritar para ser intenso. Ele precisa tocar. E tocar é diferente de impressionar.
A maturidade do poeta aparece quando ele confia no leitor. Quando não subestima sua inteligência emocional. Quando entende que exagero constante empobrece a experiência. O texto que confia no leitor cria cumplicidade. E cumplicidade gera permanência.
3. SUTILEZA – O que fica nas entrelinhas
Sutileza é o que não é dito, mas é entendido. É o território mais delicado da poesia, porque exige domínio e consciência. Quando lemos a frase “Há amores que não querem posse, querem apenas morar na alma”, percebemos que existe uma história inteira por trás dela, embora o texto não a explique. O poema não acusa, não reclama, não detalha circunstâncias. Ele sugere.
Essa sugestão cria elegância. E elegância literária nasce da contenção. Sutileza não é esconder por medo. É saber até onde dizer. É reconhecer que o excesso de explicação empobrece a profundidade. Tudo que é profundo não precisa ser excessivo.
Na tradição literária, Roland Barthes observa que o texto literário produz sentido não apenas pelo que afirma, mas pelo que deixa em suspensão. É nessa suspensão que a leitura se torna ativa. A sutileza transforma o poema em espaço de diálogo silencioso.
Quando o poeta aprende a sugerir, o texto ganha camadas. O leitor retorna a ele e encontra novas interpretações. E aquilo que pode ser relido sem perder força é o que permanece.
Integração das três forças
Imagem faz ver. Emoção faz sentir. Sutileza faz permanecer.
Essas três forças não funcionam isoladas. Um poema pode ter imagem sem emoção e parecer apenas descritivo. Pode ter emoção sem imagem e soar confessional demais. Pode ter sutileza sem construção e se tornar vazio. A permanência nasce do equilíbrio.
Quando o poeta cria cena, constrói sentimento e respeita o silêncio, ele ultrapassa o imediatismo. Ele produz literatura. E literatura não é aquilo que apenas agrada no instante; é aquilo que acompanha.
Como escritores da Família Literária, precisamos nos perguntar com honestidade: nossos poemas informam sentimentos ou constroem experiências? Criam imagens ou apenas conceitos? Confiam no leitor ou explicam demais?
Se vocês aprenderem a cuidar desses três pontos, a poesia cresce automaticamente. Não por estratégia, mas por maturidade estética.
E agora deixo uma provocação sincera: ao reler o último poema que você publicou, ele faz o leitor ver, sentir e descobrir algo nas entrelinhas… ou apenas entender?
Se quiser, compartilhe nos comentários do site qual dessas três forças você sente que já domina e qual ainda precisa aprofundar. Vamos construir essa consciência juntos.
Fonte: Dolores Flor
Comentários
Excelente material de apoio. A permanência deveria ser um dos grandes ideiais a se alcançar com a escrita. E, com tais ensinamentos feitos aqui escritor e leitor de fato aumenta a sua conexão. Obrigado
Manoel R. Leite | 12/02/2026 ás 09:18 Responder ComentáriosAgredido que consegui trabalhar com imagem, fogo que arde no peito como fogo em brasa, remete ao sentimento do amor platônico, as palavras não ditas, um cotidiano, desejar um simples bom dia já é o bastante para um amor que por muitas razões não explicadas não pode acontecer, o poema sugere a diferença de idade e a falta de coragem para enfrentar a sociedade como alguns obstáculos que torna o amor que apesar de ser recíproco, ser também inacessível.... Estou certa?
Keila Rackel Tavares | 12/02/2026 ás 11:28 Responder ComentáriosEm suma, Amando em silêncio a sua vizinha trabalha no território da contemplação, onde o observar o caminhar de todos os dias, a troca de olhares e um simples " bom dia" substituí o toque por um amor contido, envolto em segredos por medo de não ser aceito, incompreendido...
Keila Rackel Tavares | 12/02/2026 ás 11:43 Responder ComentáriosGrande aula! Li e reli! Importante para ser apreendida e colocada em prática, no ato da escrita. Obrigada!
Bernadete Crecencio Laurindo | 12/02/2026 ás 11:49 Responder Comentários