A infância abre as portas da imaginação
Dolores FlorPublicado em 02 de Outubro de 2026 ás 20h 08min
Leitura e criação de contos, poemas e fábulas
Uma criança que acompanha uma história pode antecipar acontecimentos, desconfiar de um personagem, rir de uma situação e imaginar soluções que o texto ainda não apresentou. Escrever para esse leitor exige atenção à linguagem e à maneira como ele participa da leitura. A literatura infantil oferece espaço para experimentar sentimentos, conhecer outras perspectivas e descobrir que as palavras também podem brincar.
Durante outubro, nosso Clube de Leitura terá Monteiro Lobato como autor em destaque, com leitura de episódios selecionados de Reinações de Narizinho. A partir desse percurso, exploraremos três gêneros: conto infantil, poema infantil e fábula. As experiências de escrita estarão relacionadas à antologia Era uma vez uma palavra, dedicada ao público infantil, sem uma faixa etária fixa.
1. O que significa escrever para a infância?
A literatura infantil pode apresentar aventuras, situações cotidianas, perguntas difíceis, humor e acontecimentos fantásticos. Seu caráter literário está no cuidado com a forma: a escolha das palavras, o ritmo, a construção dos personagens, as imagens e os sentidos que o leitor pode descobrir.
Uma linguagem acessível pode ser rica e expressiva. Palavras novas encontram lugar quando o contexto ajuda a compreendê-las. Sentimentos complexos também podem aparecer por meio de uma ação, de um diálogo ou de uma imagem, sem depender de longas explicações.
Para orientar a criação, vale perguntar:
- O que pode despertar a curiosidade da criança neste texto?
- Há espaço para ela imaginar e interpretar?
- Os personagens fazem escolhas ou apenas recebem orientações?
- A linguagem envolve o leitor quando é lida em voz alta?
- O texto oferece uma experiência que vai além de transmitir uma mensagem?
Embora a antologia não estabeleça uma idade fixa, cada escritor deve imaginar uma situação de leitura: uma criança ouvindo a história, lendo com alguém ou acompanhando o texto de maneira autônoma. Essa escolha ajuda a definir extensão, vocabulário e complexidade.
2. Como despertar o interesse do leitor infantil?
O encantamento pode começar com uma pequena alteração no cotidiano. Um sapato que se recusa a sair de casa, uma menina que encontra uma pergunta dentro de uma concha ou uma árvore que esqueceu o nome dos pássaros são possibilidades de criação.
Esses acontecimentos precisam encontrar uma direção. Quem vive essa experiência? O que deseja? Qual dificuldade surge? O que muda ao longo do caminho?
Alguns recursos podem ajudar:
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Recurso |
Possibilidade de uso |
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Curiosidade |
Apresentar um segredo, uma pergunta ou um acontecimento inesperado. |
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Humor |
Explorar situações surpreendentes, equívocos e diálogos divertidos. |
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Identificação |
Aproximar o texto de medos, desejos, amizades e descobertas da infância. |
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Fantasia |
Criar outras possibilidades para objetos, animais e lugares conhecidos. |
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Sonoridade |
Trabalhar repetições, pausas e combinações de sons. |
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Participação |
Deixar pistas e espaços para o leitor antecipar ou interpretar acontecimentos. |
A tecnologia pode integrar esse universo, assim como o quintal, a escola e a natureza. Na proposta do mês, o desafio é tornar a experiência literária interessante por suas próprias qualidades, evitando que a história se transforme em uma sequência de recomendações sobre como a criança deve viver.
3. Monteiro Lobato como referência de leitura
O universo do Sítio do Picapau Amarelo permite observar o encontro entre ambientes cotidianos e acontecimentos extraordinários. Em Reinações de Narizinho, podemos investigar como o narrador apresenta o cenário, como os diálogos movimentam as cenas e como os personagens reagem ao inesperado.
Nos encontros, a leitura será acompanhada de perguntas como:
- Em que momento a situação cotidiana se transforma em aventura?
- Que detalhes ajudam a imaginar o ambiente?
- Como a fala revela a personalidade de um personagem?
- O que produz humor ou surpresa?
- Quais palavras ou representações precisam ser contextualizadas?
A leitura de referência deve apoiar a criação autoral. Cada participante será convidado a desenvolver personagens, cenários e situações próprios.
4. Primeiro encontro: conto infantil
Uma aventura começa
O conto infantil é uma narrativa breve que costuma concentrar a atenção em um conflito principal. Pode apresentar fantasia ou acontecimentos possíveis no cotidiano.
Na construção do conto, observaremos:
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Elemento |
Pergunta orientadora |
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Personagem |
Quem vive a história e o que deseja? |
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Cenário |
Onde os acontecimentos se passam? |
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Conflito |
O que dificulta a realização desse desejo? |
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Desenvolvimento |
O que o personagem faz diante do problema? |
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Desfecho |
Como a situação se resolve ou se transforma? |
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Narrador |
Quem conta a história e o que consegue perceber? |
Esses elementos servem à leitura e à revisão, sem exigir que todos os contos sigam uma fórmula rígida.
Exemplo de abertura:
Na segunda-feira, Clara encontrou o portão do quintal aberto. Do lado de fora, uma nuvem esperava com uma mala.
A cena apresenta uma personagem, um lugar e uma surpresa. A continuação poderá explorar o motivo da chegada da nuvem e as escolhas de Clara.
Atividade: escreva um conto em que um acontecimento inesperado transforme o dia de uma criança.
Na revisão: observe se as ações se conectam, se os diálogos contribuem para a história e se o desfecho responde ao percurso construído.
5. Segundo encontro: poema infantil
Brincar com as palavras
O poema infantil trabalha a linguagem em versos e pode explorar ritmo, imagens, sonoridade, humor e diferentes maneiras de perceber o mundo.
A rima é um recurso possível, mas não é obrigatória. Um poema também pode encontrar ritmo nas pausas, nas repetições e na organização dos versos.
Vamos observar:
- Verso: cada linha do poema.
- Estrofe: agrupamento de versos.
- Ritmo: movimento produzido pela leitura.
- Rima: aproximação sonora entre palavras.
- Imagem poética: associação que convida o leitor a imaginar.
- Personificação: atribuição de ações ou características humanas a seres e objetos.
Exemplo:
O vento abriu a janela
e espalhou pela cozinha
as notícias do quintal. (Dolores)
O trecho atribui uma ação humana ao vento e convida o leitor a imaginar quais seriam essas notícias.
Atividade: escolha um animal, um objeto ou um elemento da natureza e escreva um poema que o apresente de uma maneira surpreendente.
Na revisão: leia em voz alta. Observe o ritmo, a força das imagens e se alguma palavra entrou apenas para completar uma rima.
6. Terceiro encontro: fábula
Histórias que fazem pensar
A fábula é uma narrativa breve que frequentemente apresenta animais personificados e coloca em discussão atitudes, escolhas e relações de convivência. Também pode incluir pessoas, plantas ou objetos como personagens.
É comum terminar com uma moral explícita, embora a reflexão possa permanecer sugerida pelo desfecho. A presença de animais, sozinha, não transforma uma história em fábula. O conflito e o sentido que ele produz são fundamentais.
Na leitura, vamos identificar:
- Quem são os personagens?
- Que atitudes entram em conflito?
- Quais consequências surgem?
- Que reflexão o desfecho permite?
- A moral corresponde ao que realmente aconteceu?
Exemplo:
Um esquilo escondia todas as sementes do bosque para garantir que nada lhe faltasse. Quando precisou de ajuda para transportá-las, percebeu que havia afastado os animais com quem poderia contar. (Dolores)
Essa situação pode originar diferentes desfechos. Cabe ao escritor construir as ações que sustentem a reflexão.
Atividade: escreva uma fábula sobre uma situação de convivência, deixando que as consequências das escolhas dos personagens conduzam o leitor à reflexão.
Na revisão: confira se o conflito está claro e se a conclusão nasce da narrativa, em vez de apresentar uma lição sem relação com os acontecimentos.
7. Quarto encontro: produção livre
A imaginação escolhe seu caminho
No último encontro, cada participante poderá escolher entre os três gêneros, desenvolver uma nova criação ou revisar um texto iniciado durante o mês.
A partilha será um momento de escuta. Quem lê poderá comentar uma imagem marcante, uma passagem que despertou curiosidade ou um ponto que precisa de maior clareza. As sugestões deverão considerar a proposta do texto e respeitar a voz de seu autor.
Para a revisão final, utilizaremos estas perguntas:
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Critério |
O que observar |
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Autoria |
O texto apresenta uma criação própria? |
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Gênero |
Sua construção corresponde ao gênero escolhido? |
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Clareza |
É possível acompanhar as imagens ou os acontecimentos? |
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Linguagem |
As palavras foram escolhidas com cuidado? |
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Ritmo |
A leitura em voz alta revela fluidez e pausas adequadas? |
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Representação |
Os personagens são tratados sem reproduzir estereótipos depreciativos? |
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Participação do leitor |
Há espaço para imaginar, sentir e interpretar? |
8. Nosso convite à escrita
A antologia Era uma vez uma palavra reunirá diferentes vozes em torno de uma intenção comum: criar literatura para a infância com atenção, inventividade e respeito ao leitor.
Uma aventura pode começar numa rua conhecida. Um poema pode descobrir algo inesperado numa colher. Uma fábula pode nascer de uma dificuldade de convivência. O trabalho do escritor está em encontrar a forma que permita a essa ideia ganhar vida.
Que aventura poderia começar no lugar onde você vive?
Leituras e referências de apoio
- LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho.
Acessar o material digital selecionado. O arquivo será utilizado para seleção de episódios, sem pressupor que corresponda à obra completa.
- FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Monteiro Lobato: o homem, os livros — Sítio.
Conhecer a história da série e de seus ilustradores.
- UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Lobato e o racismo.
Consultar o material de contextualização.
- SCLIAR, Moacyr. Monteiro Lobato. Academia Brasileira de Letras.
Ler o artigo sobre o autor e a leitura crítica.
Os exemplos e as propostas de escrita deste material são autorais e foram elaborados para as atividades do mês.
Fonte: Agência Literária