À beira do rio, uma entrada para a imaginação

Dolores Flor
Publicado em 03 de Outubro de 2026 ás 10h 06min

Primeiro encontro de outubro das Manhãs Literárias inicia a leitura de Monteiro Lobato

 

Neste sábado, 3 de outubro, iniciamos nas Manhãs Literárias a leitura de Monteiro Lobato, com o episódio “O sono à beira do rio”, de Narizinho Arrebitado. O encontro abriu o percurso de estudo da literatura infantil, propondo um olhar atento à construção das personagens, à participação do narrador e à maneira como o cotidiano se transforma em matéria de imaginação.

 

Na abertura da narrativa, a casa, o pomar, a boneca e o ribeirão compõem o universo de Narizinho. São espaços e presenças que ganham significado por meio de seus vínculos: o carinho pela avó, o cuidado com Emília e o hábito de alimentar os peixes. A personagem vai sendo apresentada por aquilo que faz, observa e estima, permitindo ao leitor conhecê-la antes mesmo de acompanhar sua aventura.

 

O sono à beira da água prepara a passagem para uma experiência extraordinária. Um peixe e um besouro, vestidos e envolvidos em uma conversa, passam a examinar o rosto da menina como se estivessem diante de um território desconhecido. O nariz se torna um morro; as sobrancelhas, materiais a serem recolhidos; as narinas, possíveis abrigos. A mudança de perspectiva constitui um dos principais recursos de humor e invenção do episódio: o leitor reconhece um rosto onde os pequenos personagens procuram compreender uma paisagem.

 

Esse movimento oferece uma questão importante para a formação de leitores e escritores. A imaginação literária encontra possibilidades nos elementos próximos, nos detalhes que o hábito pode tornar pouco visíveis. Ao modificar a escala e o ponto de vista, a narrativa produz surpresa e convida a reconsiderar aquilo que parecia inteiramente conhecido. O ribeirão frequentado por Narizinho passa a anunciar um mundo que ela deseja explorar.

 

A voz do narrador também merece atenção. Seus comentários, perguntas e mudanças de tom criam proximidade com quem lê. Já nos primeiros parágrafos, a impressão de que a avó vive triste é desfeita pela apresentação de sua felicidade junto à neta. A leitura permite perceber como o narrador orienta nossas expectativas e, em seguida, altera o caminho que parecia ter estabelecido.

 

O estudo da obra inclui ainda a atenção crítica às formas de representação das personagens. A linguagem empregada na apresentação de Tia Anastácia evidencia uma hierarquia racial que precisa ser reconhecida e problematizada. Ler o texto hoje envolve examinar sua elaboração literária e os valores inscritos em suas palavras, abrindo espaço para uma mediação consciente.

 

Como episódio de abertura de uma narrativa infantil em prosa, com elementos do maravilhoso, “O sono à beira do rio” oferece caminhos para pensar a curiosidade, o humor e a criação de mundos ficcionais. Neste primeiro encontro, iniciamos um percurso em que a leitura se aproxima também do exercício da escrita: observar como uma personagem ganha presença, como uma cena desperta interesse e como um pequeno detalhe pode sustentar o começo de uma aventura.

 

À beira do rio de Narizinho, começamos outubro com uma pergunta que acompanha nosso estudo: o que podemos descobrir quando mudamos a maneira de olhar para aquilo que já conhecemos?

 

Dolores Flor

Manhãs Literárias | Família Literária

 

Fonte: Agência Literária

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