Trivial variado


Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 15h 38min

Ingredientes: Um menino de seis a oito anos, mal desperto e ingênuo, feito esses patos chineses engordados no escuro, de preferência com olhos pretos, que lembram azeitonas, ou mais para o castanho-claro, como avelãs. Farinha, ovos, leite, manteiga (nunca margarina). Suas visões, que interrogam o futuro, sempre confusas e estremunhadas. Creme de milho, coco ralado. Medos, tremores, fechados e na porção exata, nada além do quintal, da calçada, dos vazios da rua. Raspas de rapadura, sons, açúcar, silêncios, baunilha, sorrisos, canela. Um pouco de cravo, do aromático, do que enfeita e do que fere. Uma claridade geral, aqui e ali alguma sombra, os primeiros retratos para serem vistos muito depois. Um punhado à escolha, de qualquer material, acre, turvo, farinhento, antes o punho. Sal, pimenta, vinagre. E o fermento, que faz crescer.

 

 

 

Utensílios: Uma fôrma tamanho família, untada o bastante, mas também rígida, que não trinque ao passar do forno para o congelador. Um tabuleiro onde caibam pelo menos três cidades, e os seus climas, do calor forte às madrugadas frias, transitando pela brisa branda. Xícaras, das grandes e pequenas, copos. Brinquedos (madeira e chumbo, não plástico), livros coloridos, pequenos guardados que irão mudando, o pião em isqueiro, bola de gude em anel, conchas de mar e pessoas, postais. Um liquidificados, onde isso tudo possa transformar-se misturado. O sólido, o líquido, o impalpável. Um coador, para que não restem resíduos. A farda colegial, o cobertor e o travesseiro, cintos, sapatos, cadernos, essa pasta com cheiros e cores. Uma colher de pau. Que bata, que mexa, remexa, tenha resistência. para ir vencendo, vagarosa, sem se enredar nas fibras e veias, nos cabelos e nervos. Uma larga, longa superfície suspensa, em cima o time de botão, suas traves, palhetas, tudo imóvel. Faca afiada, com ponta.

 

Modo de preparar: Misture a farinha, os ovos, o leite e a manteiga, nas quantidades que puder, batendo bem no liquidificador. Ponha na fôrma, junto com o menino, e acrescente à vontade o açúcar, a baunilha, o fermento. Deixe em banho-maria o maior tempo que for possível, uns dez anos, mais ou menos. Sempre observando, mexendo, tomando cuidado para não desandar. Nesse período cabem o estudo, o trabalho, os amores iniciais, um difuso aprendizado que pode ser difícil, ou doloroso, marcar ou não, mas que felizmente é o prazo fixo. Então, tire a fôrma do fogo baixo e veja o primeiro resultado. Se o rapaz estiver muito doce, ou muito ácido, melhore o paladar com sal e vinagre, ou rapadura e canela. Caso ele dê mostras de calado, começo de sonho ou tristeza, mais vale dizer devaneio, conforme-o de novo no formato que lhe convier. Ao contrário, havendo aumentado demais, saindo da fôrma, corte com a faca as suas aparas, ajeitando-o ao recipiente, pois não deve nunca exceder os seus limites. Veja o ponto, espetando-o com um palito. É possível que saia uma lágrima, e então chegou a hora de levá-lo à geladeira, melhor ainda ao congelador. Mas se sangrar, tenha cautela, faça exatamente o inverso: coloque-o no forno. A gente não sabe direito o que vai acontecer, nessa fase preparatória. Carreira, empresa, destinação. Enquanto espera, seja que endureça ou toste, prepare o tabuleiro com polvilho, peneirando lentamente, já que você tem tempo, coisa de três a cinco anos. Quem sabe ocorrerá um desvio, ou falha, ou mudança? Depois alinhe de lado o rolo, a colher de pau e a faca. Entre as duas operações, vá olhando sempre o forno ou o refrigerador, cuidando para que nada estrague o seu trabalho. Um homem leva dias, meses, anos, o que se chama existência. Uma refeição nunca o fraciona, simples trecho de caminho não balízado. Quando tudo estiver pronto, tire a fôrma e desenforme a pessoa, junto com o molho, deitando-a no tabuleiro. Então pegue o rolo e amasse fortemente, passando-o para lá, para cá, até ela ficar aplastrada. Em alguns casos, se a massa resiste e não amacia o suficiente, é preciso sovar, malhar, de novo utilizar o rolo comprimindo bem; em outros, pique, faça tiras, separe pequenas bolas, finas fatias, para só aí, estando a massa esquartejada, passar o rolo por cima dela, sempre com força. A essa altura, o homem suporta fácil e desenvolto. Apagou desejos, esperanças, até necessidades. Mais uma vez, despeje-o na fôrma, ele e a sua calda, levando-os ao fogão e ao refrigerador, alternadamente. Vá aumentando a temperatura de um e de outro, indo do calor ao frio, para aquecer, assar, torrar, e sempre intercalando esfriar, gelar, congelar. Não é necessário mexer, nem derramar, porque o molho não escorre, já se fez sólido e prendeu o homem, Ele pôs de lado a casa de Itanhaém, o sítio de Gramado, a fazendola de Minador do Negrão. Praia, montanha, chapadão, tudo cessou desfeito em projetos. Deixe-o então assim, até ficar na temperatura ambiente. Reagindo e aceitando, com rompantes mas serenando amolecido, pouco a pouco se acalmando, e consentindo, e afinal abrandado. Os sonhos, principalmente os que perderam o sentido, tomaram o lugar das visões. O jovem prevê, ainda que tumultuado; o homem aquieta sua aspiração naqueles instantes que precedem o despertar, cota de irreal chegando ao mundo em volta; o velho sonha porque pode, simples exercício, nada mais inócuo ou disperso que o retrospecto sem objetivo. Que pode um sonho contra a sua verdade? Se as indicações forem seguidas, a média de tempo é de sessenta e um anos. Passados com um todo, apesar das suas muitas parcelas. Atente na receita, mas invente, dê asas à imaginação. Haverá alterações no resultado, quase imperceptíveis. Mas o prato, o homem a oferecer, continuará sempre igual.

 

Como servir: Meça a pessoa, estendendo-a de costas e ao comprido, com as mãos sobre o peito, as pernas juntas, perfeitamente imóvel. Pincele no seu rosto cores mais vivas, prenda-lhe o queixo, coloque algodão nas narinas. Que se esqueça do mar e da serra, não diga nem sinta os seus odores. Salpique sobre ela um pouco d'água, benta ou não, pétalas de rosa, sempre a seu gosto. Ainda segundo o seu desejo, pode cortá-la em pedaços, o que não será demais ou imprevisto, já que veio se dividindo, em metade, em derivados, miúdos brotos que tendem a crescer e repeti-Ia. Improvise à vontade. Cubra, engavete, incinere. E não se esqueça de enfeitar, pois é importante. Quem não fez, não pôde, gosta de parecer. Foi assim com ele, não foi? Antes que se desfaça, vista-o de alguma coisa severa e digna: panos, pratas, madeira. A seco, nada de gelatinas. Essa refeição deve ser feita com estilo e decoro, à luz de velas, em meio ao silêncio que apura o paladar. Isso o ideal. Em todo o caso, fique dentro das suas possibilidades. Um jantar de cerimônia requer requintes, um almoço em família apenas o desvelo de afeto, uma refeição acidental não traz obrigações. Mas viver é custoso, fatigante, uma aventura que inesperada se repete, dia a dia, no cotidiano de feijão ou em cardápio mais fino. Relaxe, pois esse não é um prato que você decida. Pode no máximo seguir as instruções.

 

Acompanhamentos: Para a entrada, não são necessários tantos vagares, basta um caldo leve. Despejado ao acaso, nos pratos que houver. Ninguém prestará atenção, dirá coisas convencionais ou não dirá nada, frases feitas, sentido sossego, todos irão assim recolhidos até a sobremesa. Reparando em você, na sua família, as homenagens são suas e não dos convidados. Antigamente eram comuns as expansões, hoje se usa mais o discreto e contido. De passagem, lembre-se do pão, só como lembrança. E também não se importe com o que vier depois, os amigos estarão muito apressados ou muito lentos. Um sorvete, um doce, um bolo. Sempre recordam os primeiros tempos, que podem estar próximos, distantes, depende das circunstâncias, mas ficam bem. Como um quindim, um sonho. Os sonhos talvez sejam o mais indicado, porque de acordo, já que ele gostava e repetia, mesmo sem conseguir satisfazer-se. De qualquer modo, concentre-se no principal e deixe o secundário, o que servir antes, a sobremesa, não são coisas de fazer tanta diferença. Vale mais pensar em como se fazem, porque os modos variam e dizem dos cuidados na receita. Ou o resultado não importa? Afinal, você receberá os elogios. E viver dá algum trabalho.

 

Coquetéis: Aguardente, cachaça, pinga. Com cerveja. Ou uísque e martíni, com vinho. Depois do café, conhaque ou licor. É conforme o cenário. Como a toalha de xadrez ou de linho, o jogo americano. Tradicionalmente, a bebida se recomenda. O vinho, que seria a melhor sugestão, por fraternal e demorado. O café, indispensável. Às vezes, depois de servido, alguém mais íntimo pede a palavra e fala do seu momento. Ouça, procure entender e guardar. As palavras ecoam, vibrando, particularmente as substantivas. E assim os discursos são permitidos, ainda que você já saiba o que irão dizer. Prepare-se para eles, sempre de louvor, agradecidos, apesar das variações de tom. Há os que se calam, os que formam grupos de voz baixa. Aceite-os. Os taciturnos se escondem, mas têm que vir à tona. E não são seus convidados? Se desejarem música, use com parcimônia e escolha a que achar mais apropriada, de preferência as notas imprecisas, chuvosas, vagamente vacilantes ou descritivas, um nada sobre o som de fundo. Quando a fumaça dos cigarros incomodar, aproveite os olhos vermelhos. Temos tão pouca liberdade. Sirva com vagar, demorando o mais que puder, um dia, uma noite, nunca menos. Dirija, se desvele, desdobre. O máximo possível, não termine logo a sua refeição. Dona-de-casa, rainha do lar. Bebendo, falando, cumprindo. Na mesa não se envelhece.

 

Lembrete: As regras da etiqueta são mutáveis. Admita desculpas em telegramas, cartões, mesmo cartas atrasadas. Tolere principalmente as ausências. Não querem dizer nada, ou são motivos que nos escapam. Há pessoas que não suportam nem a idéia desse prato.

Fonte: RAMOS, Ricardo. O sobrevivente. São Paulo: Global,

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