"O passarinho na vidraça"
Publicado em 29 de Abril de 2026 ás 15h 02min
Numa rua do Pacaembu, tranqüila e torta, a casa fica à direita de quem sobe. Amarela, com janelas de basculantes, pequeno jardim fronteiro, ela ostentava um anão preto no gramado e uma bandeira tremulando na sacada. Mas implicaram, tiraram os dois. A bandeira porque não podia se é paulista precisa a brasileira também, logo restou o mastro nu. O anão só de birra. Foi removido para o quintal, discretamente. É difícil reconhecer na casa, assim classe média, um próprio do governo. Apesar da placa indicando a repartição estadual.
Lá dentro, no entanto, há funcionários. Eles trabalham, ou não, em salas, quartos, copa e cozinha. Dois homens, quatro mulheres. Vagamente especializados, atendem visitantes e expedientes. Uns e outros raros, freqüentes, não há como se disciplinar essas coisas. Felizmente existem os serviços regulares, de faxineira e segurança, que não sofrem ondulações. De acaso ou de sistema.
A casa é fria, no inverno e no verão. Não é velha, é antiga. Menos pelo seu real de arquitetura e divisões, mais pela sua atmosfera. Muito para trás, passada, com veludos, brasões, atravancada de mesinhas, bibelôs, pequenas pratarias. Vem dela não propriamente uma sensação de museu, será antes de herança e domínio. Um dono invisível que morreu e legou. Deixando a sua marca, em cortinas, objetos, livros e quadros.
À tardinha, quando escurece, os funcionários se comportam diferentes. Uns quietos, outros não, eles reagem aquele clima. Falam do homem, evitam falar. Há os que não vão ao andar de cima. Ou não acreditamos em sortilégios? Entretanto um visitante do passado, íntimo revendo a casa, avisou a todos: aqui morou uma família feliz. Então os fluidos são bons
Sim e não, antes pelo contrário, o fato é que, de repente, baixou o passarinho. Baixou das árvores em volta, que ainda são muitas, e era um pardal. Um pardal solto na varanda, no chão, bicando o vidro do jardim-de-inverno. Aquela porta-janela envidraçada. Que ele bicava insistente, ritmado, sem intervalos. A tarde inteira.
Pode-se imaginar o efeito da aparição. Um pardal, diminuto e alucinado, bicando uma vidraça. Horas, dias a fio. E naquela casa.
A faxineira, bem naturalmente, apenas achou que ele estava anunciando um troço ruim. O segurança foi além, declarou que o bichinho queria entrar para falar com o homem. O outro segurança, o da noite, nem disse nada: fez o sinal da cruz, escuro e cansado.
Se tudo ficasse por aí, nos chamados serviços auxiliares, podia passar. Mas, não. Uma datilógrafa começou a assustar-se a todo instante, invocada, de arrepiar-se e dar gritinhos. Uma assistente-técnica, decerto se prevenindo, resolveu chegar e sair mais cedo, plenilúnio é palavra bonita, no entanto sombria. Somente o homem de comunicações, o escrevinhador da notícia, objetivo reparou: um pardal estranho. Realmente. O passarinho tinha estrias na cabeça, parecia coroado.
Não importava que fosse cruzado, com o que bem entendesse, com tudo o que voa se mostrando fora do comum. O diabo era o fôlego do passarinho, assustador. Bicando a vidraça ensandecido, sempre, danado de maluco. Anuviando ao redor.
Ele não vai agüentar um dia mais. Ele não morre e não some nunca. Ele está ou não está possuído?
Ninguém pode prever nem responder. E insensível ao que despertava, provocava aos que próximos o seguiam observando, disfarçados mas atentos, o pardal continuava a postos contra a vidraça. Bicando adoidado.
Um mês correu, naquela agonia. O compassado bater, o desconforto meio assombrado. Ai, se reparou quando ou como, deixaram de perceber o bichinho e seu barulho martelado. E essa ausência cortou as raízes do medo. E não se falou mais no assunto. E o mundo se acomodou normal. É possível que ele, pequenino inexplicado, se tenha incorporado às interrogações maiores da casa. Feito um fantasminha.
A última vez que o notaram foi quando o diretor, numa pausa de conversa e ouvindo o seco bicar de vidro, largou acidental: passarinho mais chato.