Nome e sobrenome


Publicado em 20 de Abril de 2026 ás 16h 09min

"O que é um nome?", perguntou Shakespeare. Lembrando a velha indagação, me vêm de repente algumas respostas, principalmente dos meus poetas. Drummond, sempre modelar, viu o seu tempo: "Meu nome é tumulto, e escreve se na pedra." Oswald, o apaixonado, viu a mulher: "Felicidade / teu nome é / Maria Antonieta d'Alkmin." Jorge de Lima, humildemente, viu na folhinha o seu adverso guerreiro patrono: "O nome do Santo que ali estava." E Bandeira, feito evocação do Recife, exclamou: "Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância."

 

Nessa tão alta companhia, penso e logo desisto. Não sou chegado ao risco das apoteoses mentais. E me acomodo, talvez porque haja lembrado também Cassiano: “Só sou sincero quando estou em silêncio.” O verso me serve, como serve a muitos. Agora e em outras ocasiões.

 

Mas por que essa fixação com nomes? Porque li há pouco uma nota de jornal, um comentário bastante curioso. Finda a leitura, que me levou por uma série de considerações, eu parei de pensar no assunto e me refugiei na poesia. É um terreno seguro, que nos resguarda. Nem chego a dizer que eleva e consola. Para mim, basta a proteção contra certas realidades, mais ou menos escuras. Daí a divagação literária, uma fuga civilizada. Chega, no entanto, de parênteses, e vamos ao meu motivo inicial. Vamos à nota.

 

Nos últimos anos, ela observava, todos as presidentes brasileiros eleitos foram conhecidos pelos seus nomes, um deles até pelo apelido: Juscelino, Jango, Jânio. Enquanto isso, todos os nossos presidentes impostos foram chamados pelos sobrenomes: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo. Mais ainda, se um presidente era militar, mesmo eleito esse tratamento não mudava: Dutra.

 

Além de verdadeiro, o registro é interessante. E pode ser enriquecido. Recuando um pouco mais, encontramos Getúlio Vargas. Como todos sabem, ele foi uma espécie de centauro: meio ditador, meio presidente. (O Barão de Itararé diria meio cavalo, meio égua.) Pois bem, por mais que a propaganda estadonovista batesse na tecla da simpatia, com os retratos, sorrisos e charutos de anedota, Gegê nunca pegou. E hoje nos referimos àquela figura distinguindo: a ditadura de Vargas, o governo de Getúlio.

 

Qual a significação dessa diferença, que foge a controles e se revela basicamente popular? A imaginação pode correr solta nas interpretações, o chute é livre, mas existe uma zona bem clara. A da intimidade ou não. Nós, como regra, só chamamos pelo nome a quem conhecemos. Com os outros, convém uma certa distância. Se procuram falar comigo numa campanha eleitoral, se eu saio de casa e voto, posso dizer que conheço o meu eleito. E chamá-lo pelo nome. Se ao contrário eu sou apanhado de surpresa, ligo a televisão e ouço pela primeira vez o nome do general que me vai tutelar, mudam a música e o andor. Quanto maior a cerimônia, melhor. Respeito é bom e eu gosto.

 

A nota que li, está claro, termina botando as coisas no plano de agora para amanhã. Temos agora dois candidatos à Presidência, ambos indiretos, que serão submetidos a um colégio, não eleito por nós, mas inventado pelo bloco dos sobrenomes. As semelhanças entre os dois postulantes acaba aí. Um faz campanha, outro faz conchavo. Um é experiente, outro é primário. Um quer abrir, outro quer fechar. Enfim, um se chama Tancredo, outro Maluf.

 

Sempre temos razões para gostar do povo. Por mais ingênuo ou manobrável que se mostre, ele acerta mais que tecnocrata bilíngüe. Quase sempre. E vamos reconhecer, essa de já principiar organizando os trabalhos, separando adulto de menino excepcional, sem dúvida é ótima. Não adiantou casuísmo, como passaram a definir chicana, que todos entendem. Quer dizer aquilo mesmo, que o decoro me impede ser explícito. Não adiantou fundar o colégio, nomear e renomear e constranger, que tudo pode mudar. Ou esse mecanismo de cima para baixo é infalível? Tenho para mim que não, que a maioria de baixo um dia termina influindo, conduzindo, decidindo para cima. Diretamente, ganharia longe. Indiretamente, ganhará também. Simplesmente porque, e ponham simplicidade nisso, ao câmbio de hoje democracia tem nome: Tancredo. Ditadura tem sobrenome: Maluf.

Fonte: RAMOS, Ricardo. Nome e sobrenome. Folha da Tarde,

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